quarta-feira, dezembro 17, 2008

O ACTUAL 23

"Cztery noce z Anna" - Jerzy Skolimowski


No amor, não podemos fazer ao Outro nada que o mundo não lhe faça (fodê-lo, portanto). Podemos, isso sim, alterar o sinal da acção. Leon, o protagonista do último filme de Skolimowski, assistiu à violação (negativa) da enfermeira Anna. O seu amor toma então a forma de uma violação positiva. E se o realizador escolhe um agente patológico para encabeçar a sua alegoria, isso é porque o amor talvez seja de facto um sentimento patológico, uma deformação da natureza humana (a própria penetração sexual é uma violência sobre o corpo destinada a criar prazer).

Assim sendo, não existe amor ideal. Pois para ser ideal, o amor teria de decorrer num mundo adormecido, num mundo que não conseguisse reagir nem progredir. Daí o tom absurdo de "Quatro noites com Anna" (absurdo, mas também terno, humorístico e minado pelo suspense). Quando implantada na realidade, a ideia tem de acusar o seu simplismo ridículo.

Na senda de "Rear window" e "Peeping Tom" (mas também de "El espíritu de la colmena" e "The purple rose of Cairo"), o filme funciona ainda como alegoria do próprio cinema (enquanto projecção do desejo humano). A penetração no além-ecrã é a penetração num universo dormente, ontologicamente diverso do universo do espectador. Se o cinema nos modifica a nós, a verdade é que nós passeamos (os olhos) no filme sem o conseguimos alterar, sem que ele reaja, sem que ele tome consciência da nossa fascinação. A História do cinema é inseparável da História do amor a partir do início do século XX: o afecto ilude-nos, mas nós somos incapazes de dar conta do absoluto que ele parece exigir.

"Quatro noites com Anna" é um filme sublime. Skolimowski consegue convocar os mitos da Bela Adormecida (que não pode despertar para não revelar a infantilidade do príncipe), da "Prisioneira" de Proust, do Anjo da Guarda, da Fada do Lar, e até talvez da Fénix (o corpo de Anna é um renascimento das cinzas a que diariamente Leon reduz os corpos humanos no seu crematório).

A mestria do realizador não tem mácula. Basta atentar na expressividade com que a cor é tratada (quando Leon sai da casa de Anna de manhã, a neve vibra com a roupa branca que o vento balança num estendal), no controlo da iluminação (a aranha registada em close-up, que no plano seguinte se torna sombra ínfima a subir a gravata de Leon), na gestão do tom sonoro (o estranho chilrear do painel luminoso com a imagem de umas cataratas), etc.

Num filme onde todos os indícios vão dar à injustiça, o muro final é um anagrama do rumo que a vida se entretém a truncar.

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