terça-feira, dezembro 23, 2008

Hors d'oeuvres

Este é um poema atípico de Manoel de Barros:


"Todos os caminhos - nenhum caminho
Muitos caminhos - nenhum caminho

Nenhum caminho - a maldição dos poetas."




A beleza da obra de Barros nada tem a ver com esta concisão higiénica. No entanto, o texto define com rigor o sentido do "nada" na sua poética. Enquanto predicado, o "nada" resume-se a não ser mais que um regulador de ilusões (uma questão de crítica filosófica, portanto). Mas a partir do momento em que ele é assumido como um sujeito de pleno direito (em que se desloca no espaço do texto), o "nada" passa a ser o horizonte a partir do qual e em direcção ao qual a poesia de Manoel de Barros se constrói. Um "nada" que permite o achamento do poético longe de todas as convenções humanas.

O seguinte texto ainda não é típico o suficiente, mas é uma belíssima Arte Poética. Falaremos mais da obra deste autor.


"Escrever nem uma coisa
Nem outra -

A fim de dizer todas -

Ou, pelo menos, nenhumas.

Assim,

Ao poeta faz bem

Desexplicar -

Tanto quanto escurecer acende os vagalumes."

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