terça-feira, dezembro 09, 2008

Dizem-me que sou óbvio

Segundo a minha visão distorcida das coisas, um conservador não se distingue de um vanguardista pelo facto de ser de direita, de gostar de pintura em vez de videoarte, de ser contra a interrupção voluntária da gravidez ou de mudar de opinião consoante as escolhas que Obama faz para a sua equipa.

Um conservador é aquele que, perante uma evidência contrária ao seu pensamento (prova científica ou verdade humanista), continua a ser fiel à sua opinião.

Por exemplo. Há quem diga que a homossexualidade não é natural. Ora, há imensos registos científicos de práticas homossexuais no mundo animal. Poder-se-ia dizer, isso sim, que a homossexualidade é uma orientação minoritária no mundo natural e que não cumpre uma das funções da genitalidade (que é a reprodução). No entanto, o conservador continuará a afirmar que a homossexualidade não é natural, apenas para se manter fiel à narrativa (essencialmente religiosa) em que foi educado (note-se que o caso seria diferente se o argumento fosse: a homossexualidade é imoral; aí a discussão passaria do âmbito das ciências para o âmbito das humanidades). Ou seja, o conservador é aquele que toma as suas posições porque sim. E por isso, o conservadorismo confunde-se sempre com autoritarismo. Não é só o Paulo Portas que é conservador: Jerónimo de Sousa tem exactamente a mesma postura.

Se muitas vezes eu digo coisas óbvias, é talvez porque não consegui formular evidências. De qualquer modo, prefiro ser um rebelde poedeiro de ovos de Colombo (contra todo o obscurantismo mais ou menos oportunista) do que um arquitecto de um belo edifício conceptual que, espremido, não passa de puro disparate.

O vanguardista é o que traça o seu caminho na solidão. Todos temos os nossos fascínios intelectuais (no meu caso, Espinosa, por exemplo). Mas é o indivíduo, na sua irredutibilidade, que tem de pensar, repensar, diariamente, situação após situação, a ética e a política que conduzem os seus passos.

Isto não é um sofisma.


(Nota: quando não há evidências de nenhuma ordem, então temos apenas homens agarrados às suas fés e às suas agendas. E aí a distinção faz-se entre os imbecis e os humildes.)

3 comentários:

Rui Rebelo disse...

Pois eu acho que ambos (conservador e vanguardista) têm lados positos e negativos. Não é no meio que estará a virtude mas no conseguir englobar a face positiva de cada um e com essas duas faces fazer outra moeda.

pedroludgero disse...

Terá sido algo parecido que eu quis dizer...

Carlos Pinto Vinagre disse...

Dou-lhe razão no que disse. Quando falava do conservadorismo, lembrei-me logo de umas posições de uns colegas meus, e realmente descreveu bem a sua postura. Um abraço