quarta-feira, novembro 26, 2008

Puro-sangue de Troia

Que o bom não equivale ao belo, isso é já uma evidência adquirida.

Lyotard explica-o com precisão: o sentido do gosto que o belo incita é desinteressado perante o objecto dito belo (nem sequer há a vontade de com ele satisfazer os sentidos), enquanto o respeito moral se articula sempre como a manifestação de um interesse (de uma acção sobre o mundo).

Mas nem precisamos de filosofices para o perceber. Ainda hoje li no jornal PÚBLICO a entrevista feita ao escritor V. S. Naipaul, e a vontade de conhecer a sua obra que ela me trouxe resultou tanto da tensão intelectual das palavras do autor como da latência de crueldade que essas palavras encerravam. Artista e santo não se confundem (de qualquer modo, basta ler a Agustina para perceber que estas coisas de crueldade e generosidade não são nada lineares).

No entanto, as verdades não-científicas distinguem-se por não serem fatais. Ou seja, lá porque o bom e o belo não se equivalem, não quer dizer que alguém não possa construir um projecto de vida no qual a ética e a estética tentem ser as duas faces da mesma moeda. Não será preciso dizer que a ética não se confunde aqui com pieguice ("Blindness") nem a estética com sentimentalismo ("Il miracolo a Milano").

Falo de uma escolha. De fabricar um caminho de brasas para uma existência descalça.



(Imagem de Manel Armengol)

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