domingo, novembro 30, 2008

O INACTUAL 29

"O meu caso" - Manoel de Oliveira (1986)


Por definição, a religião permite que cada indivíduo transcenda a premência do seu caso para se interessar pelo caso do outro, e assim participar na construção de um caso comum: a humanidade. A peça de José Régio, que inspirou um dos melhores filmes de Oliveira, para além de evocar os diversos ingredientes que compõem a vida (o sexo e o amor, a necessidade de comunicar, a miséria económica e social, a revolta, a criatividade, etc.), expõe, precisamente, o carácter espontâneo e endémico do egoísmo humano.

O realizador encena o texto regiano três vezes (tantas como as negações de S. Pedro), aprofundando a sua interpretação através dos meios específicos do cinema. Depois de uma primeira versão "neutra" (para expor claramente a alegoria), surge um take cuja referência é o cinema mudo (porque o Homem fala sem ser ouvido por ninguém, e além disso, perante as promessas escatológicas, encontra-se sempre na sua própria pré-história), e que tem a imagem acelerada (porque a velocidade do mundo moderno é absurda). A partir destas falhas, desta incompletude dos processos cinematográficos, a palavra surge como manancial de sentido: o texto de Samuel Beckett, para além de enunciar o desejo de morte tão caro ao Homem (irónico quando consideramos a longevidade do próprio Oliveira...), fala da divisão de cada ser em dois seres conflituantes (talvez o corpo e a alma, mas só talvez). Ou seja, se não pode haver um meu caso na sociedade, a verdade é que o próprio indivíduo é, ele mesmo, uma sociedade de casos.

A terceira encenação recorre a uma grande-angular muito deformante, a uma iluminação esbranquiçada fantasmática, e põe os actores a debitar uma língua inexistente. O sentido torna-se evidente: a deformação da vida privada leva à deformação da História. Em tom desesperado, enumera-se o descaso em que a nossa espécie se tornou: fome, guerra, poluição.

Com a adaptação de parte do Livro de Job, Oliveira filma a passagem deste sofrimento excessivo (porque Deus pode tudo) a uma redenção inefável (porque Deus tudo pode). O que não quer dizer que o autor seja um homem de fé: ele limita-se a filmar a religião. Tudo no filme é teatro. A voz e a luz de Deus são meros altifalante e projector. O Paraíso final é ostensivamente kitsch (irónico, portanto). A própria irrupção que o homem revoltado faz na peça de teatro dentro da peça de teatro (o homem capaz de formular a verdadeira questão) pode não ser mais do que a verdadeira... peça de teatro (qual é a diferença entre a invenção de uma nova convenção e a sofisticação de uma convenção pré-existente?).

O que afinal liga tudo (o que religa) é o próprio cinema, ou mais especificamente, a montagem. Liga textos canónicos, liga encenações desses textos, liga sentidos. A religião é uma construção mental. E contudo, numa obra que tanto toca o horror da "Guernica" como a beleza da "Mona Lisa", a única certeza que passa para o espectador é que o nosso maior caso é o enigma.

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