terça-feira, novembro 11, 2008

O ACTUAL 22

"Entre les murs" - Laurent Cantet


Neste filme frontalmente político, François Bégaudeau (autor do livro a partir do qual o projecto se consolidou, e seu actor protagonista) e o realizador Laurent Cantet definem a escola como o lugar onde o indivíduo adquire as condições intelectuais necessárias para poder construir o seu auto-retrato. Ou seja, se cada um de nós mantém uma relação documental consigo mesmo (através do constante esforço de sobrevivência do ser-presente), o conhecimento objectivo permite-nos um distanciamento ficcional dessa relação de modo a podermos construir uma imagem indirecta de nós mesmos (um conhecimento subjectivo que é, ao mesmo tempo, a tomada de consciência da pertença do indivíduo a essa abstacção chamada Homem). Ora, o problema da escola contemporânea é que esta não consegue convencer os seres a quem se destina (crianças e adolescentes) da relevância do conhecimento que pretende transmitir.

A didáctica do filme adquire impacto a partir do momento em que faz progredir o seu osso narrativo (bastante clássico, de resto) através de uma matéria dramática exclusivamente composta pelo próprio assunto a que essa didáctica se refere. Ou seja, quase todas as cenas são encenações de aulas (também em "Raging bull" de Scorsese, todas as sequências acabam por ser combates de boxe). Não se trata, portanto, de um filme com ensinamento acoplado, mas de um filme que é, em si mesmo, ensinamento.

A estratégia didáctica recorre essencialmente à figura do ricochete. Assim, o professor Marin, apesar de ser ele quem ensina, é a única pessoa que acaba por aprender alguma coisa com os eventos retratados em "Entre les murs". E através da própria fusão experimental entre documentário e ficção que o filme apresenta, Cantet acaba por conseguir construir um auto-retrato de François Bégaudeau (não sei se há alguma outra adaptação cinematográfica de uma obra literária que obrigue o autor desta a fazer, malgré lui, o seu próprio retrato). Repare-se que Cantet apenas fornece o dispositivo; quem se retrata é o próprio autor-actor (como acontece na relação entre o professor e os seus alunos).

Só assim podemos apreender a humanidade frágil da figura do professor. A sua boa-vontade, a sua tenacidade, a insegurança, o eventual desnorte. Contra o entendimento da figura do docente como um super-homem científico-pedagógico, Bégaudeau defende que não há um único professor deste mundo que nunca tenha destruído um aluno (por muito boas que sejam as suas intenções). O que em nada diminui o seu valor como homem e como profissional. Simplesmente, essa sinceridade é um ponto de partida melhor para entendermos o que está em causa na instituição escolar.

E o que está de facto em causa é que a escola pública, a partir do momento em que o ensino se universalizou, se tornou um palco de explosão da raiva social (e quanto mais imatura e ignorante é essa raiva, mais ela é genuína e por isso difícil de gerir). Sem tomar isto em consideração, não se pode formular nenhum pensamento rigoroso sobre o ensino obrigatório. E o que ouvimos nós nas nossas alegres sociedades? Ora os propagandistas de um espírito de exigência sem qualquer sensibilidade à questão social, ora os pedagogos de esquerda que tomam os adolescentes de meios desfavorecidos como idiotas (veja-se aquela aluna que despreza os livros que o professor lhe dá para estudar, porque leu, de sua livre vontade, nada menos do que "A República" de Platão)...

O filme não dá respostas, mas mostra o resultado provável do estado da escola pública: a expulsão do aluno Suleymane equivale a uma proscrição social.

Os jovens fazem perguntas que parecem ingénuas (porquê aquele conhecimento?, porquê a autoridade?), mas que, na verdade, são verdadeiras interrogações filosóficas. A desvalorização que a República impôs às humanidades (não por acaso o professor lecciona francês) levou a que se tenha perdido o sentido aglutinador de todo o conhecimento. Ora, sem conhecimento não se forma aquela consciência humanizada que permite que o indivíduo se sociabilize.

A República está chumbada. Por faltas.

1 comentário:

Porfirio Silva disse...

Desculpe a intromissão para um... Convite. Dê a sua opinião sobre a avaliação dos professores. Diz que é uma espécie de inquérito.