sábado, novembro 08, 2008

Nota "Gomorra"

Fico sempre inquieto quando um médico me diz que x série televisiva (o "Serviço de urgência", por exemplo) representa a sua profissão tal como ela é. Não que eu duvide do eventual rigor técnico que o argumento da série possa exibir (o mesmo acontece com os CSIs), nem do realismo possível da encenação.

Não. A minha dúvida é accionada pela consciência que eu tenho de que uma ficção é sempre um dispositivo de selecção. Uma profissão tal como ela é... Será que, num serviço de urgência, ninguém vai à casa de banho? Não há serviço de limpeza? Médicos com tempos mortos? Médicos que até vão dormir? Pacientes cuja doença não tem o glamour digno de um bom share de audiências? Inimizades mesquinhas e carreirismos cínicos? Ou seja, o que se vê nessas séries é apenas uma escolha daquilo que os seus autores supõem ser relevante no quotidiano de uma urgência de hospital. Continuo, aliás, a defender que o único projecto realista honesto seria aquele que, utopicamente, se fundisse com a totalidade da realidade. Teria de ser ubíquo e, na eventualidade da realidade ser eterna, teria de ser eterno. Só assim captaria o real em toda a sua complexidade.

Quero com tudo isto dizer que aquilo que os médicos vêem nas séries televisivas que retratam a sua profissão é uma selecção de momentos da prática que ela acarreta. A partir daqui, é preciso analisar o sentido (ideológico, estético, etc.) dessa selecção. Não falando sequer das grandes narrativas insinuadas nestas pequenas narrativas que se pretendem pós-modernas (o médico como um herói, o polícia como um justiceiro, etc.), temos que reconhecer que a ficção que essas séries apresentam é um repositório de convenções que não se distinguem dos procedimentos do filme de acção, do filme de prestígio, do filme independente, enfim, de toda a quinquilharia de ingenuidades do cinema americano. Estas séries repetem, portanto, os grandes arquétipos narrativos da sociedade ocidental moderna (política, economia e religião incluídas), adaptando-os com rigor ao contexto de um quotidiano profissional, e simplificando-os formalmente para caberem na (falta de ambição de uma) televisão. Será que os médicos, ao reclamarem o realismo de "Anatomia de Grey", se estão a ver a si mesmos como heróis?

O filme "Gomorra" chega-nos com a mesma propaganda de "the real thing". A crítica que fizemos anteriormente aplica-se aqui sem tirar nem pôr. Simplesmente, o realizador Matteo Garrone tem perfeita consciência da dimensão codificada da ficção que propõe ao seu espectador. Ou seja, ele sabe que está a mostrar o quotidiano da máfia a partir desse filtro ficcional que é a mitologia que Hollywood criou em torno do submundo italiano. As próprias personagens parecem sofrer da alienação provocada por esse glamour.

A diferença é que Garrone decidiu filmar com actores não profissionais pertencentes ao meio a partir do qual se articula a verdadeira máfia napolitana. Ou seja, à maneira de uma instalação, o filme cola a ficção convencionalizada à autenticidade dos seres humanos aos quais essa ficção se refere. E daí resulta toda a força de "Gomorra" (a sua agressividade, a sua verosimilhança, mas também a sua ironia). Isto não vem, claro está, pôr em causa um filme como "The godfather". Vem apenas colocá-lo no seu lugar. Vem dizer que a obra de Copolla não é uma visão realista da máfia, mas a criação de uma mitologia trágica a partir da realidade da máfia.

Claro que, se tomarmos em consideração a sofisticação e a maturidade que o documentário contemporâneo atingiu, podemos perguntar se um filme como "Gomorra" é assim tão relevante quanto isso... De qualquer modo, o resultado é assaz interresante.

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