sábado, novembro 08, 2008

Nota Dreyer

As mulheres costumam reclamar, com orgulho, o facto de serem relativamente amorais. Enquanto o homem (sisudo e puritano) planifica, constrói, destrói, condena, etc., a mulher tem aquele tipo de sageza relativista que torna a vida possível, ou pelo menos suportável. Isto dizem as mulheres.

O feminismo de Dreyer articula-se de um modo quase oposto. Se no seu cinema são os homens que criam as grandes ilusões do pensamento, são as mulheres (duras e obcecadas) que as tentam realizar. É como se o dinamarquês entendesse que a inteligência de que o macho se reclamou ao longo da História só pudesse ser realizada pela nobreza feminina. Mas ao mesmo tempo, estas mulheres dreyerianas destinadas a arderam nas várias fogueiras que a vida lhes propõe, apresentam um perfil psicológico que deve mais ao mito (convencional) do mártir viril do que ao pragmatismo (não confessado) da estratégia feminina. Haverá aqui uma certa bi-humanidade (diria Llansol?).

Em "Gertrud", por exemplo, é o Poeta quem verbaliza a relevância, acima de todas as outras, do Amor. Mas quem o aprendeu profundamente, quem o tenta de facto realizar, quem o exige, quem por ele sofre e com ele se transforma, é a Mulher assinalada no título do filme.

De igual modo, a santa de "La passion de Jeanne d'Arc" retira toda a sua nobreza da concretização prática, levada até às últimas consequências, do pensamento que todos aqueles homens seus juízes intelectualmente tutelam.

E em "Ordet", que cada vez mais me parece um dos momentos mais altos da criatividade do século XX, se é Johann, o louco, quem acende a Palavra de fé capaz de ressurreição, a verdade é que é Inger, a morta, quem DE FACTO ressuscita.

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