domingo, novembro 23, 2008

No escrínio 44


Poema "estação", de Mário Cesariny:


"Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça"



Um comboio é tão decisivo no destino de um ser humano como uma subtileza: o comboio leva a pessoa ao sítio certo ou errado (só o tempo o dirá), muda as coisas de lugar, produz o encontro, aproxima, distancia - o cinema está cheio de historiecas dessas. Por simetria, não há subtileza que não seja tão ostensiva, ruidosa e útil como um comboio.

Em tom disfórico (se bem que esse tom nunca seja concretizado - estaremos a falar de uma melancolia do poeta ou do estado de uma civilização, de um episódio singular ou de uma tendência cultural?), Cesariny lamenta a contraposição que existe entre a abstracção vaga do Desejo ("esperar", "querer") e o movimento da sua concretização ("vir esperar", "vir querer-te"). Recorrendo ao auxiliar "vir", o escritor não só dá a força da proximidade a este movimento concretizador, como define o poema enquanto estação onde o desejo se pode realizar (o poema é o sítio onde o leitor, de momento, está).

A concretização do desejo é uma das principais preocupações do ideário surrealista (e não deixa de ser irónico que, numa sociedade sexualmente liberada como a nossa, esse movimento ético-estético seja olhado com desconfiança...). Como em "Écoute" de Benjamin Péret, podemos aqui descortinar todo uma metaforização especificamente sexual: o comboio é um pénis, o chove miudinho é a ejaculação (o "vir-se"), o fato com que virei é o preservativo. A aproximação do comboio é, aliás, uma forma de orgasmo: o "esperar" passivo e o "querer" activo tornam-se equivalentes através dessa subtileza.

No entanto, Cesariny é um surrealista impuro. Este seu texto é uma mistura de imaginários, quase um cadavre exquis (em sentido figurado) que reúne sentimentalismo (ver a imagem em cima), modernismo ("Perdi-me dentro de mim / Porque eu era labirinto, / E hoje, quando me sinto, / É com saudades de mim." - Mário de Sá-Carneiro), realismo (a chuva obriga à preocupação prosaica com o guarda-roupa), absurdo (chegar sem ter chegado) e fantástico (venho ver se me apareço).

Pois, mais do que falar do trânsito de afectos desencontrados (desde o desencontro literal até ao facto de que um ser pode estar presente com o corpo mas não com o espírito), o autor pretende confrontar o leitor com a ideia de que vir esperar o outro é vir esperar-se a si mesmo (e vice-versa). Não é por acaso que no último verso surge um imperativo que manda os desejantes darem o nome. A identidade constrói-se sempre com base na alteridade. A própria identidade do surrealismo foi assim construída (é também o caso de Alexandre O'Neill, e até de outros, como Herberto Helder ou Edmundo de Bettencourt que, obviamente, não pretenderam ser integrados nessa corrente). Em Cesariny o surrealismo não é uma doxa, mas uma inquietação que leva à descoberta.



(Imagem retirada daqui)

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