quarta-feira, novembro 19, 2008

Know when (nuance)

Um dos lugares-comuns da reflexão sobre a sétima arte (devidamente justificado pela história do cinema clássico e por algumas modernidades, como a de Godard, por exemplo) é aquele que defende que raramente um bom livro dá um bom filme.

Se há bastante verdade nisto, é preciso contudo actualizá-la com uma pequena nuance (actualizar - após Dreyer, Oliveira, Straub/Huillet, Duras, Syberberg, algum Fassbinder, etc.). Pois esse pensamento não é exacto naqueles casos em que há, por parte do realizador, uma dupla competência: cinematográfica e literária.

Quando eu falo de competência literária, não estou a falar de realizadores-escritores. Por exemplo, Manoel de Oliveira já provou que é um frágil escritor de diálogos. Falo, isso sim, de cineastas que são grandes leitores, que têm uma relação visceral e esclarecida com a literatura.

E quando falo de competência cinematográfica, estou a referir-me ao facto de todos os cineastas acima mencionados terem desenvolvido um pensamento em torno do conceito de adaptação. Ou seja, eles não pegaram em histórias escritas para as recriarem com meios audiovisuais, antes reflectiram sobre a possibilidade de filmar um texto, ou de tornar uma imagem legível. Em consequência, são estéticas que colocam cinema e literatura em pé de igualdade (já não se dá o caso do grande filme que usou uma historieca medíocre como meio, nem o caso do grande romance que não encontrou na sua filmagem um bom meio para a sua popularização).

Assim sendo, quando dizemos "preferi o livro ao filme", ou vice-versa, já não estamos a comparar o sucesso de meros esforços narrativos, mas a pertinência dos pensamentos ético-estéticos dos autores em confronto.

2 comentários:

Carlos Pinto Vinagre disse...

Muito interessante o teu escrito. Realmente, já tinha pensado nessa questão, mas não tinha olhado na relação obra cinematográfica e a literária. Escapou-me, com o teu texto, o comboio começou a rolar.

pedroludgero disse...

Obrigado pelas tuas palavras.

Na verdade, esta questão já está muito debatida (eu não disse nada de novo). Só escrevi o post porque ainda hoje se continua a dizer que "quase nunca um bom livro dá um bom filme", e no entanto parece-me que, após coisas como "O evangelho segundo Mateus" de Pasolini ou o "Querelle" de Fassbinder, isso já não se pode continuar a dizer com a mesma ingenuidade.

As artes/humanidades não produzem verdades exactas como as ciências, mas também são capazes das suas evidências...