quarta-feira, novembro 19, 2008

Know how (evidence)

Continuamos a defender que uma das aquisições da modernidade narrativa foi a transição da relevância da matéria da história para o modo como esta é contada. No "Dom Quixote" ou em "Stagecoach", a atenção do receptor é conduzida pelas peripécias da narrativa. Mas já em "Madame Bovary" ou "A bout de souffle", a mediocridade do enredo é pervertida pela profundidade dos trabalhos conceptual e formal.

É claro que a postura do criador perante a narrativa mudou por acção do pensamento moderno. No entanto, pressinto que, tanto no passado como no presente, nunca a narrativa foi tão importante como o modo de a transmitir.

Por exemplo, o filme "Gertrud", de Dreyer. O seu enredo é lastimável: é a história de uma mulher que já tinha idade para ter juízo, e que, por ainda estar presa ao conceito de amor absoluto que aprendeu na juventude, deixa um marido dedicado para se envolver com um ganapo mais novo que, depois de ter conseguido os favores sexuais que almejava, começa logo a desprezá-la. Este podia ser o enredo de uma telenovela mexicana. Se "Gertrud" permanece como um dos filmes mais modernos de sempre (o que justifica as resistências daqueles que amam outros filmes do realizador), a telenovela é a redução de toda a inteligência criativa ao espalhafato da narratividade (uma espécie de paródia ao classicismo). Quem gostar desta história de faca e alguidar na versão telenovelesca, dificilmente apreciará a construção do cineasta dinamarquês, e vice-versa. E a narrativa é igual.

Os espectadores de cinema comercial continuam a julgar que vão ao cinema ver o desenrolar de uma história (quando a história é quase sempre a mesma...), mas na verdade vão é entrar em contacto com uma determinada estética que se finge invisível para criar a ilusão de que a história é mais emocionante (e única e nova) do que, na verdade, é. Mas os planos curtos (não contempláveis), os movimentos de câmara inúteis, o realismo codificado do jogo dos actores, o sinfonismo de mau gosto das bandas sonoras, etc., tudo isso é que determina a adesão ou a repulsa que o espectador vai sentir.

Fazer um filme hollywoodiano é, de facto, difícil. Porque o realizador não parte da sua verdade pessoal (da curiosidade e ignorância que o atormentam), mas dum código artificial e estreito que demora a ser dominado mas que gera mais intérpretes do que criadores.

O que mudou, com a modernidade, foi a consciência de que o sucesso da história depende do modo como esta é contada.

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