domingo, novembro 23, 2008

Fora-de-texto

A primeira vez que me desloquei a uma sala de projecção para ver um filme de Andrei Tarkovsky, encontrei um barbudo de fato-de-macaco que me disse que aquilo era cinema muito difícil, muito simbólico. Eu já ia cheio de medo, medo de não compreender o filme de um intelectual. Mas aquela introdução amacacada só desajudou: passei todo o "Stalker" a tentar descortinar o sentido por trás de cada objecto que aparecia na imagem. Isto quer dizer aquilo, aquilo quer dizer aqueloutro, aqueloutro quer dizer aquelaqueloutro - um verdadeiro dominó de alienação.

Talvez por causa desse episódio anti-iniciático, eu sempre me tenha divertido a gozar os simbólicos. Repare-se que eu sou insuspeito: contra toda a teoria contemporânea, sou um ardente defensor da metaforização (da penetração de cada ser por um outro). Mas quer-me parecer que o tipo de hermenêutica que se ensina na escola (mesmo o meu magnífico professor de português do secundário caía por vezes nessa esparrela), e acima de tudo a insegurança intelectual de alguns intelectuais, faz com que muitas vezes o acto de leitura seja completamente desvirtuado.

A leitura é a compreensão (detectivesca, se quisermos...) do modo como funciona um texto (literário, visual, musical, etc.). Um texto pode conter símbolos, mas também pode não os conter (não há dogmas na criação). O sentido pode apresentar-se transparente ou obscuro. Mas ler não significa propriamente decobrir o sentido (embora isso também possa ser relevante). O detective-leitor está à procura não tanto do autor do crime mas da maneira como o crime foi executado.

Perante um filme, é preciso perceber como a direcção de actores, a escolha dos enquadramentos, as opções de montagem, etc., como tudo isso funciona de modo a criar um todo coerente (coerente, note-se, não tem nada a ver com puro nem com perfeito, nem mesmo com lógico), um todo em torno do qual se possa construir uma estabilidade conceptual provisória. Se esse todo se articula em mensagem, ensinamento, interrogação, exposição, sensação, ocultação, etc., isso difere de filme para filme.

Já conheci todo o tipo de simbólicos: desde um rapaz que queria atribuir uma conotação metafísica aos ratinhos que aparecem no "Bleu" de Kieslovski, até à senhora que afirmava não gostar de Fiama Hasse Pais Brandão porque aquilo era só "metáforas" (ou seja, a senhora não entendia o funcionamento de uma poética que, por acaso, até tem uma relação problemática com a metaforização...).

A vontade de escrever este post surgiu-me quando, ao fazer a leitura do poema "estação" de Mário Cesariny, tive a ideia de que a palavra "vir", a mais relevante desse texto, talvez pudesse ser lida como uma evocação latina da masculinidade (como Cesariny era homossexual, teria assim anotado secretamente a orientação do seu desejo num poema que, precisamente, fala de desejo). No entanto, parece-me de todo improvável que isso possa ser lido dessa forma. Mesmo que, na leitura do meu post, eu defenda alguns processos de semantização que talvez não tenham sido usados conscientemente pelo autor, a verdade é que eles se articulam uns com os outros numa estabilidade conceptual provisória (o poema ultrapassa sempre o seu poeta), e são todos decifrados a partir daquilo que o texto oferece. Ao contrário, não há no poema nenhum indício de citação clássica, de substracto verbal morto, nem mesmo de ludicidade joyceana. Pelo que descartei aquela possibilidade leitura, com receio de passar da hermenêutica para o simples delírio.

Ler é, de facto, difícil. Ler um livro, um homem, uma sociedade, um firmamento. Mas depois de ter lido o "Dom Quixote", fiquei convicto de que a falta dessa competência é um dos problemas centrais da Humanidade.

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