sábado, outubro 25, 2008

Retalhos da vida de um jovem 3

Quando eu comecei a escrever poemas-de-quem-tem-vinte-anos-mal-medidos, houve quem me tivesse dito, com a mais pedagógica educação, que aquilo era mau como o excremento das cobras. Estive, por isso, cerca de seis anos em silêncio, sem saber como poderia fazer corresponder psicologia, intelecto, experiência e expressão num processo genuíno.

Foi só em 1998, já com vinte e seis verões pré-al-gore (tardio como em tudo), que voltei a escrever: estou portanto a fazer dez anos de morte oculto-literária. Como os poemas desse novo período me pareceram mais ajeitadinhos, resolvi fingir que não me achava o melhor poeta à face da terra e assim enviei os meus textículos a um poeta famigerado para que ele sobre eles se pronunciasse com um inevitável derrame de admiração.

E como, anos antes, tinha dirigido uma curta-metragem com base num texto de Herberto Helder, estando por isso na posse dos dados do seu endereço de então, foi mesmo ao autor de "A colher na boca" que mandei os meus trejeitos de poetizo.

Herberto Helder foi de uma gentileza sem par. Disse-me que gostava dos poemas, se bem que eu não o esmagasse como Rimbaud e Celan (sic). Gostei mais da segunda parte da apreciação: se alguém tem de se defender do nosso abrir-em-vaidade com tais termos de comparação, é porque o ego-pavão já tem algum colorido no cu.

Até aqui, tudo bem. Mas eu não dei tréguas. Ao sonho romântico do mestre autorizante, seguiu-se o delírio incm da correspondência-postumamente-publicada. Ora, na altura, eu tinha um amigo que, ao contrário de mim, não disfarçava as suas ambições, e que me garantiu, verdade verdadinha, que toda a gente sabia que o Herberto Helder passava as tardes a jogar suecadas no Bairro Alto (ou no Chiado, já não me lembro). Era a fantasia total: então não é que o poeta cuja faca não corta o fogo era um viciado cortador de baralhos? Ah, a boémia, a boémia...

O pavão não esteve com meias medidas (estava naquela fase em que o poeta se acha um acelerador de partículas só porque descobriu que Roma é anagrama de Amor). E assim, engraçadinho da polissemia, eu disse ao Herberto Helder que sabia que ele gostava de jogar cartas, e que por isso gostaria de continuar a nossa correspondência. Ao que o Poeta me respondeu, furioso, que detestava tanto o jogo como a epistolografia.

Foi então que terminou, bruscamente, este capítulo das minhas obras póstumas. Mas garanto-vos: como pessoa, tenho melhorado um bocadinho.

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