sábado, outubro 25, 2008

O INACTUAL 28

"Aniki-Bóbó" - Manoel de Oliveira (1942)


Este clássico percursor do neo-realismo (pelo menos, é o que se diz) apresenta-se à primeira vista como uma parábola moral. O efectivo roubo da boneca, que o Carlitos sente como legítimo (ele constitui, afinal, o traço mais lírico do argumento), é exponencialmente ampliado pela injusta acusação de uma tentativa de homicídio. À maneira bergmaniana, este artifício meramente ficcional (o fantasma) vem mudar, de facto, a vida do personagem. Ou seja, Carlitos (ante)vê até onde o poderia levar uma vida de crime, e de imediato se redime (note-se que o contexto da época era a Segunda Guerra Mundial).

No entanto, e como sempre acontece em Oliveira, o filme articula-se sobretudo como uma inquietação de ordem sociológica. O jogo de sorte (o título da obra) que as crianças usam para escolher quem vai representar o papel de ladrão e o papel de polícia durante a sua brincadeira, mostra que a estigmatização do indivíduo é uma questão de acaso (ou seja, nasce-se num determinado meio social por acaso) e que isso pode ser combatido pela vontade individual (Carlitos reclama que não quer ser ladrão). Nenhuma posição social é, portanto, um destino inelutável. A arbitrariedade pode conjugar-se com o livre arbítrio (e o filme é um conto infantil, não um tratado económico sobre qual o caminho eficaz).

Por outro lado, as crianças representam um tema que, no fundo, é apropriado para adultos (o que é normal na infância), e a maior parte dos papéis da fita são profissionalmente representados por amadores. Pois todo este pomposo assunto de ética-proscrição é algo bem maior do que cada um deles (ver este post). O Homem é um amador no estranho Mundo que para si mesmo criou. Daí que seja cómico ver as crianças dissertarem sobre as almas, assim como toda a rugosidade do seu encarnar-personagens. Ainda não estão atravessadas por um texto (como Ema ou Benilde), mas são portadoras de algo que as transcende e o seu corpo já se encontra iluminado por essa condição. Assim, há aqui um terceiro nível de leitura (ao mesmo tempo o mais superficial e o mais profundo), que tem a ver com a solidariedade que o realizador estabelece com a anarquia infantil. Como se a única forma de digerir a Cultura fosse através de um sorriso de orgulhoso sarcasmo.

Eis um filme que é oferecido à flor da nossa pele, e que ousa propor a mais desajeitada das reconciliações com a vida. Se não se fizerem muitos mais filmes sobre o Porto, este já chega.

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