sábado, outubro 04, 2008

O INACTUAL 27

"O passado e o presente" - Manoel de Oliveira (1971)



A primeira atitude de Manoel de Oliveira quando semeia o baldio do cinema com a literatura, é a criação de estranheza.

No caso deste magnífico filme, realizado no fim de uma época em que Portugal parecia apenas ter passado, são vários os exemplos dessa atitude provocadora: excesso de música, excesso de movimentos de câmara (sim, este é um filme de Oliveira!), os actores dirigidos de modo a provocarem efeitos cómicos mantendo-se deadpan como Buster Keaton, acções ritualizadas, valorização expressiva e semântica das pausas, etc.

Mas a estranheza advém principalmente do assunto que o filme enquadra. Pois se o amor é uma simplificação geométrica da vida e da morte de modo a permitir que elas sejam contempladas em simultâneo (ver este post), todo o humor que se pretenda colher desse transgénico campo do amor tem de acusar, precisamente, a simplificação.

O texto dramático de Vicente Sanches já oferece toda essa ferocidade: basicamente, narra o estranho caso de uma mulher que só consegue amar mortos, e de um homem que encena a própria morte para se livrar do amor. É um par ridículo, na medida em que cada um dos seus elementos não se livra de ser sempre o gémeo de si mesmo (tratam o amor com uma pompa conceptual que não coincide com a possibilidade do humano). Os outros casais que constituem o seu círculo de amigos, encontraram formas (menos convencionais, ou talvez até mais amorais) de tornar o amor sobrevivível: desde a ausência de um traço compulsório na relação, até à infidelidade descomplexada e revitalizadora. Encontraram o equilíbrio para algo que, de certo modo, é maior do que eles. Aliás, só um destes casais pouco metafísicos é que tem filhos: futuro, portanto.

A maneira de filmar/montar é terrivelmente cómica (o que não implica gargalhada constante, ou sequer ruidosa). Ao fim de algum tempo de mise en scène oliveiriana, basta que surja um plano onde apenas se vêem dois pés a caminhar, para que um sorriso se reclame dos nossos lábios. Mesmo a música, quando irrompe, adquire um cunho de sarcasmo (e que difícil é dessacralizar Mendelssohn...). O ritmo ossificado, o tom carnívoro, a propensão para a simetria visual, a robotização dos movimentos dos intérpretes, a erotização descarada e sem sofisticação, tudo se conjuga para fazer de "O passado e o presente" uma obra em cuja fruição o espectador não consegue destrinçar o prazer do desejo de liberdade.

Pois a cerimónia para que Oliveira nos convida é aquela na qual se distingue, com clareza e até que a morte nos ceife, a simplicidade do simplismo.

Sem comentários: