quarta-feira, outubro 29, 2008

Nota "Bonjour Tristesse"



Não há razão para que o filme "Bonjour Tristesse" (Otto Preminger, 1958) esteja tão amaldiçoado na história do cinema como, na verdade, se encontra. É nada menos que um filme de valor mediano, capaz de nos sugerir algumas das fragilidades e virtudes do sistema industrial de Hollywood no seu período clássico.

Os limites da obra são evidentes. Por exemplo, Preminger nunca consegue tornar o filme filosófico (não tem ideias de encenação nesse sentido): tudo o que ele filma são acções de melodrama. Ora, na narrativa original sugere-se que o comportamento da personagem de Jean Seberg corresponde precisamente a uma aprendizagem filosófica (aliás, todo esse comportamento surge como escape à obrigação de estudar Pascal e Espinosa durante as férias).

Ao mesmo tempo, algumas ideias ao nível da adaptação (do romance de Françoise Sagan) são, francamente, infantis. Por exemplo, a voz-off que debita directamente os pensamentos de Seberg (como se o realizador não encontrasse equivalentes cinematográficos para o artifício narrativo).

Também me parece que Deborah Kerr (magnífica actriz, de resto) não foi dirigida com especial profundidade. O seu suicídio, no fim, surge quase como inverosímil perante a personagem que foi construída ao longo do filme (e isto é cinema realista...).

E o que dizer da paisagem natural que, nas mãos de um Godard, encontraria a intensidade pictórica-semântica que falta ao mero cenário de Preminger?

Mas "Bonjour tristesse" também tem coisas esplêndidas. A começar pelo casting. Apesar das minhas reservas em relação à direcção de actores, a verdade é que a escolha destes é perfeita: David Niven, Seberg e Kerr parecem ter nascido para estes papéis. Ainda se lembram do nariz de Nicole Kidman a fazer de penca de Virginia Woolf?

Por outro lado, a honestidade narrativa é total. Se o autor não compreende a dimensão mais profunda do que está a contar, maneja a sua superfície com grande destreza. Tudo o que nos é mostrado é relevante, tudo contribui para a construção do sentido narrativo, não há vaidades nem experimentalismos gratuitos.

E, por fim, o que dizer da fotogenia? A cena correspondente à imagem acima partilhada é das mais belas, visualmente falando, que eu pude ver ultimamente. Ou seja, a maneira de filmar é de tal modo justa que nela não conseguimos distinguir a comoção do seu sentido.

Sem comentários: