sábado, outubro 11, 2008

No escrínio 43

Poema "Escuta" de Benjamin Péret, traduzido por Regina Guimarães:









Se me abrigasses como um besouro num armário
eriçado de prímulas pintadas pelos teus olhos de viagem de longo curso

segunda terça-feira etc seriam apenas uma mosca

numa praça cercada de palácios em ruínas

onde medraria uma imensa vegetação de coral

e de chailes bordados
onde se veriam

árvores abatidas que obliquamente se vão embora

até se confundirem com os bancos dos jardins

onde eu dormia à espera que viesses

como uma floresta espera a passagem dum cometa para que se faça luz

nos seus maciços que gemem como uma lareira

a chamar pela acha que sempre desejou desde a hora em que bocejou
como uma pedreira abandonada
e treparíamos qual escadaria por uma torre acima

para nos vermos desaparecer ao longe

como uma mesa levada pela cheia




Este poema é a mais bela figuração de uma relação sexual que me lembro de ter lido (no caso de Péret, entre um homem e uma mulher).

As hostilidades são abertas pela penetração que está latente no primeiro verso: o sujeito lírico, metaforizado em besouro (por sua vez, metáfora do pénis), vai ser abrigado no sexo do ser desejado. Para além da desproporção de tamanhos entre penetrante e penetrada (o desejo extremo leva sempre a uma hiperbolização do seu objecto), o facto de um armário não servir para abrigar besouros coloca a foda no domínio da pura infracção (mas também evoca o imaginário do esconderijo secreto, o que completa o sentido político de toda a ideia).

Ao se menorizar a si mesmo, o poeta provoca uma menorização do tempo: segunda, terça-feira, etc. tornam-se também insectos: moscas. O prazer torna o tempo pequeno, estanque, insignificante. Em compensação, a mosca voa numa praça (de novo a representação do percurso do pénis na vagina) cercada de palácios em ruínas: ou seja, num cenário onde o tempo deixou de correr. A viagem de longo curso que está prometida nos olhos da amada é nada menos que a viagem na eternidade, na breve eternidade que o gozo erótico confere.

Curiosamente, enquanto o par faz amor, o poeta contempla possibilidades de trabalho humano (o artesanato dos chailes, o trabalho da madeira, a domesticação da natureza em jardins), como se a civilização fosse fundada mais no impulso criativo do desejo do que em qualquer tabu. Mas, depois de, como amante experiente, ter esperado que a mulher atingisse o seu mais demorado orgasmo (venir, em francês, também pode significar vir-se), irrompe no poema a verdadeira selvajaria: a pedreira está abandonada, surge uma floresta negra, os fluidos genitais unem-se em inundação. Como se o momento de te(n)são exigisse um labor que o clímax viesse reconduzir à pura animalidade.

No fim, os amantes estão profundamente unidos. O sexo passou a amor. Eles são a escadaria para a sua própria torre (o que, desde logo, afasta tentações de marfim). Ou sobretudo, são uma mesa: quatro pernas que se fundiram num objecto único, sólido, ainda por cima relacionado com a vocação humana para a reunião.

E vêem-se a si mesmos, desaparecendo ao longe: porque em francês um orgasmo é petit mort, ou mais exactamente porque é no cumprimento do corpo que o espírito pode atingir a sua maior distância e abstracção.