sábado, outubro 11, 2008

GPS

Mesmo os partidos de esquerda, quando militam em defesa dos direitos LGBT, afirmam que o seu empenho tem a ver com o respeito pela liberdade de escolha de orientação sexual. E ele há livros que discutem o problema (opção ou fatalidade?), ele há crentes no determinismo genético (gente que reconhece os gays pelo cheiro), paladinos da mudança (já que não podem dizer correcção, evolução, ou redenção), e etc. Muitas opiniões, muito intervencionismo do Estado, da Igreja e dos privados.

Na vida real, como sempre, as variantes são múltiplas e bem mais complexas que quaisquer preconceitos. Pois há, por exemplo, crianças que, por estarem protegidas em instituições religiosas contra o terrível experimentalismo da adopção por casais gay, iniciaram a vida erótica num contexto homossexual e depois tiveram de se libertar, com angústia, desse abuso prematuro; há quem recalque o desejo homoerótico que supõe ser infractor de uma lei inquestionável (muitas vezes com resultados psíquicos desastrosos, para si e para os outros); há quem se habitue ao sexo oposto, se case, constitua família, e ao fim-de-semana tire uns troços com amigos em igual situação; há quem renuncie a fazer a dita opção, e vá saltitando sem complexos entre macho e fêmea; há quem, de facto, mude a sua orientação sexual porque o seu íntimo lho ditou; há quem foda mesmo com quem não gosta, só porque sim; há quem se prostitua sem limitações; há quem assuma a homossexualidade mas a esconda do mundo; há quem considere o mundo um armário que não mete medo; e talvez até haja quem decida permanecer casto.

Eu coloco o problema à minha maneira. Ninguém escolhe ser homossexual, heterossexual ou bissexual (ou qualquer outra variante), mas também ninguém está condenado a uma orientação erótica. A meu ver, o que cada um escolhe é aceitar e tentar cumprir o seu desejo, ou lutar contra ele. É tudo uma questão de dignidade sexual, de levar o sexo muito a sério (coisa que, pelos vistos, não interessa a ninguém). Ou seja, há pessoas para quem uma moralidade de génese religiosa (mesmo que essa génese esteja esquecida ou não seja assumida) e/ou uma interdição de tipo socio-cultural são mais importantes do que o seu desejo. E há outras para quem o respeito por esse desejo é que constitui um verdadeiro problema ético.

Uma das razões por que admiro os surrealistas (já que desconfio da escrita automática, reconheço os tiques de autoridade que compuseram a sua história ou as próprias contradições do seu pensamento erótico - lésbicas sim!, gays nunca!) é o esforço que eles fizeram para colocar o sexo no seu devido lugar, ao mesmo tempo retirando-lhe importância (é apenas foda, valha-nos deus) e enobrecendo-o (é um prazer, puro, generoso, gerador de felicidade).

Qual é o Problema?

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