terça-feira, outubro 21, 2008

Conjugação

Há quem diga que o cinema deve mostrar aquilo que o mundo é. E isso parece justo.

No entanto, essa postura engendra em mim algumas perplexidades:

1. Será possível filmar aquilo que o mundo não é? Será que o Homem é capaz de dizer outra coisa a não ser a verdade imanente da sua condição? Terá ele tais possibilidades demiúrgicas que consiga inventar um mundo outro? Eu preferia dizer que há cineastas que filmam a sua própria vontade de impostura, a sua desonestidade ou a sua triste ingenuidade, mas que o mundo lhes resiste no ecrã como um algodão que não engana. Claro que os filmes que eles produzem não são relevantes. No entanto, o que neles ficou registado não é o não-ser-do-mundo mas essa coisa muito mundana que se chama mentira.

2. Aquilo que o mundo é... Mesmo que deixemos uma câmara sozinha a filmar um pedaço de mundo, a delimitação do enquadramento e do tempo de filmagem já implica um ponto de vista sobre esse mundo. Ou seja, o mundo é tanta coisa, em tanto tempo e em tanto espaço, que o cineasta apenas pode captar uma parcialidade de tudo isso. Quando me dizem que o mundo é guerra e fome, eu fico perplexo porque, apesar de eu ter noção de que grande parte da Humanidade está submetida aos horrores da guerra e da fome, a verdade é que eu não estou. Pergunto então: não farei eu parte do mundo? Ou será que aquela concepção é apenas a que resulta do nosso convívio diário com o jornalismo? Peço que não me interpretem mal: eu sei que a guerra e a fome são temas mais prementes do que a corrupção no futebol, mas se é o ser do mundo que se pretende captar, então não o podemos reduzir de forma ditatorial. Pois o mundo (em sentido lato) tanto é uma fotografia de Abu Grahib como uma entrevista para o primeiro emprego, um reflexo de Aldebarã como o primeiro dia que uma criança vai à escola, um cenário de devastação bélica como o José Rodrigues dos Santos a fazer de jornalista nesse cenário, George W. Bush como a pessoa que nos incomoda sexualmente, etc. Eu preferia, portanto, dizer que o cinema deve mostrar aquilo que o mundo é para o cineasta. Isso evita o totalitarismo do presente do indicativo e afasta os controleiros da criatividade.

3. E depois, porquê filmar a partir de tão pobre conjugação? Não será essa a forma menos lúcida de resignação? Porque não há-de o cinema mostrar aquilo que o mundo pode ser, aquilo que o mundo deve ser, o que seria se, o que será se, o que nunca foi, o que nunca será, o que no fundo é, o que julgamos que é?... Ou seja, não haverá mais gesto político quando o cinema se nega a tentação de jornalismo (que é fundamental para a sociedade, mas não se confunde com a chamada sétima arte), e se torna uma conjugação da possibilidade?

1 comentário:

paysanxxi disse...

e ainda melhor talvez, são aqueles que sabem, percebem, reconhecem a terra semeada e já a filmam tendo em conta a Vida ( por enquanto, e para o Mundo, tão só incógnita e/ou potencial ) que essa semente proporcionará.
mas sim, essas são AS grandes questões.