quarta-feira, outubro 29, 2008

Adenda a "Fictionary"

Se a ficção é a tentativa de reconstruir o real e o documentário o impulso inverso, também poderemos dizer que a parte que é ficcional num filme é aquela que o realizador tenta prever, enquanto a dimensão documental é aquela outra que desafia toda a previsão.

Através da ficção, o cineasta contempla o real a partir do passado deste. Ou seja, a ficção é o que permite tentar reconstruir um real que já passou. Por exemplo, quase todos os filmes narrativos tomam um argumento prévio como referência. De modo semelhante, a rodagem de um documentário parte de um esforço de pesquisa prévio. Mesmo que consideremos a hipótese absurda de um filme documental que recuse a investigação, e cuja rodagem se faça sem um plano condutor (não havendo sequer cuidado em pré-definir quaisquer enquadramentos), a verdade é que o realizador tem sempre de escolher pelo menos o tipo de câmara, película e objectiva que vai usar, a equipa com quem vai trabalhar, e o espaço que vai constituir o ponto de partida da filmagem. Ora, todas estas decisões sine qua non são decisões de ficção, são decisões tomadas a partir de um conhecimento prévio do real (ou melhor dizendo, do conhecimento de um real que já se encontra no tempo passado).

Pelo contrário, tudo o que o cineasta não pode prever conforma o espaço documental do seu filme. Por muito que o actor ensaie, a verdade é que a adrenalina do momento da filmagem, e o efeito psíquico criado pela câmara, colocam um risco transformador em torno da sua representação. Nesse sentido, o cineasta mais radical é Manoel de Oliveira que, ao recusar dirigir os seus intérpretes, atinge uma espécie de grande pureza documental na relação da sua câmara com os corpos que ela capta. Mas não é só o humano (outro exemplo, o entrevistado num documentário) que é imprevisível (ou seja, presente). Também o sol, o vento, o ruído impõem ao filme uma espécie de presente indómito.

Tomando como exemplo os filmes de Straub/Huillet, poderíamos dizer que o vento que agita os actores em "Othon" faz parte da perspectiva documental desse filme. Mas já em "Antígona", o percurso das sombras que os intérpretes, iluminados pela luz solar, produzem no chão, foi obviamente previsto pelos autores e por isso pertence ao domínio da ficção.

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