terça-feira, setembro 02, 2008

Tangentes ao conflito

1. Por muito esforço que a minha cabecinha faça, não consigo encontrar nenhuma outra justificação para a tutela da integridade de uma fronteira a não ser a vontade (livre e responsável) das pessoas que prosseguem as suas vidas dentro do espaço criado por essa fronteira. Ou seja, se os Portugueses quiserem expandir o seu território para as terras de nuestros hermanos, isso não é legítimo porque estamos a conflituar com as expectativas territoriais dos espanhóis. E vice-versa. Mas se o Alberto João quiser tornar a Madeira independente, e a maioria do seu povo partilhar da sua vontade, não vejo inconveniente nenhum em que o continente se desligue da floresta de laurissilva e do hotel do Cristiano Ronaldo. Não tenho infantis ilusões de posse.

O que eu lamento (com sobranceria, claro) é que ainda haja países que estão a discutir fronteiras quando já há sondas espaciais a aterrarem em Marte. Afinal, viver em Portugal não é assim tão mau como isso: para nós, este é um problema medieval.


2. Os comentadores apressam-se a dizer que, na Rússia, a democracia não é possível. Eu traduzo isto desta forma: há povos, coitadinhos, que por determinismo histórico-cultural nunca poderão evoluir (o que eu qualifico de racismo, e não de putativo realismo); e por outro lado, é melhor que eles por lá se mantenham bem açaimados para nós, cá no ocidente, podermos gozar em paz as delícias da liberdade. Claro, viver em liberdade é difícil. Muito, mesmo. E a primeira dificuldade a vencer é aquela que impede o respeito pela livre determinação do Outro.


3. Sejamos francos: quem iniciou as hostilidades foi a Geórgia. Hostilidades bem letais, de resto. Mas logo isso foi aproveitado por um Putin perigosíssimo e nostálgico de imperialismo e por um George W. Bush com problemas psicanalíticos graves. A rapidez e a facilidade com que o Uncle Sam passa da tentativa diplomática para a ameaça de conflito é deveras assinalável. Os galos, ciosos da sua virilidade e com vontade de demarcar território, estão prontos para uma luta que lhes foi deixada em herança mal resolvida. Ora, a nossa função enquanto governados (falo para georgianos, russos, americanos, europeus...) é negar-lhes os sonhos bélicos e mostrarmos que preferimos uma paz complexa à simplificação do Poder imperial. Sejamos indiferentes aos Príncipes, quando outra coisa eles não merecem. Cada vez mais concordo com o Fellini quando ele dizia que a política é acima de tudo uma questão de clubismo fanático. Mas a que preço...

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