segunda-feira, setembro 29, 2008

Roleta russa

Mais duas achegas acerca d' "A gaivota", de Anton P. Tchékhov:

1. Quando, no último acto da peça, as personagens se divertem com um jogo de loto, isso não é apenas um sinal da sua indiferença perante o estado dramático a que a psicologia de Tréplev chegou, mas acima de tudo a representação do facto de aquelas relações estarem a arriscar a própria morte do jovem escritor. "A gaivota" não é, realmente, uma tragédia, na medida em que não existe um destino pré-determinado para Tréplev, ele não está condenado a suicidar-se desde o início. O gesto fatal surge como um conjunto de acasos que o dramaturgo, através da figura do jogo de risco, qualifica como sendo irresponsabilidades.


2. Durante o último encontro entre Tréplev e Nina, esta confirma-lhe que o amor que antigamente os uniu continua extinto e que, ao contrário dele, conseguiu encontrar a sua vocação artística. Ora, a partir do momento em que o laço sentimental é definitivamente cortado, surge uma situação de competitividade criativa entre os dois. E nunca saberemos se a principal motivação do suicídio de Tréplev foi o sentimento de radical solidão ou esta profunda humilhação intelectual.

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