domingo, setembro 14, 2008

Relendo "A sibila" (nota)

No fundo, "A sibila" de Agustina Bessa-Luís é a história de uma mulher que, devido à relação que manteve com o pai, conseguiu construir um afecto enquanto mãe, mas não enquanto amante. Ou seja, a escritora revela, com toda a lucidez, que é mais fácil desprezar alguém que está num plano de igualdade para connosco (aquele com quem podemos construir uma relação sentimental) do que um pai ou um filho. "Desprezar" é a palavra certa: Quina, personagem de infinita complexidade, despreza todas aquelas mulheres que se perdem nos atavismos sentimentais da feminilidade, mas sobretudo despreza a boçalidade viril, aquela incapacidade que o género masculino pode apresentar tanto perante a razão como perante o espírito. Mas Agustina sabe que ninguém foge à sexualidade, e por isso coloca a sua sibila a amar o pai (encantador mas irresponsável engatatão) e o filho adoptivo (grotesco vadio sem carácter).

Para alguém que, como eu, despreza a ilusão do sobrenatural (e que não precisa de religião), o romance pode mesmo apresentar-se como a explicação psicanalítica do delírio espiritual e do calculismo materialista de uma figura feita da mais humana contradição. Mas isso não é importante (até porque a autora talvez não o aprovasse).

Aquilo que Agustina parece defender é que, no contexto humano (neste caso, a sociedade rural , que ela descreve e desconstrói com conhecimento de causa), a parte mais relevante do intelecto não é o pensamento domesticado mas tudo aquilo que permanece derrotado dentro do espírito e que só consegue exprimir-se através do aforismo. Assim, o aforismo não é mera proposição concisa baseada na experiência, mas a própria essência da visão do mundo da autora. O génio que Quina demonstra na sua capacidade de oração e profecia partilha com o aforismo a mesma essência de clarão súbito. Ou seja, a verdade da experiência é revelada não tanto por uma estrutura racional que lhe é equivalente e existe dentro do sujeito (Kant), mas pela dimensão mais rebelde da inteligência. E aí permanece uma muito política garantia de liberdade (e uma possibilidade factual de auto-superação).

Por isso Agustina é tão exímia paisagista: a sua natureza rural não é propriamente lírica, mas uma beleza contestatária.

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