quarta-feira, setembro 10, 2008

Observações

Estou a escrever um conjunto de ensaios sobre poesia que, entre várias outras intenções, pretendem limpar certos conceitos (como o lirismo, a metáfora, etc.) do esterco medíocre que a História sobre eles acumulou. Assim sendo, comecei a ler alguns livros que abordam a questão do sublime.

Um desses livros é "Observações sobre o sentimento do belo e do sublime" de Immanuel Kant. A obra não está disponível em português, e por isso li-a numa tradução para a língua inglesa do princípio dos anos 60 (presumo que seja uma tradução clássica, na medida em que não consegui encontrar nenhuma outra presentemente disponível).

O tradutor da obra (John T. Goldthwait) diz no prefácio que a grande novidade do tratado kantiano é o facto de ele ter verbalizado um novo tipo de sublime: a dignidade humana. Curiosamente, uma história do sublime que eu igualmente li ("The sublime" de Philip Shaw) não menciona este subtil pormenor... Enfim, não posso assegurar que Goldthwait tenha razão no que diz (não li nem nunca irei ler tudo aquilo que se escreveu sobre o assunto), mas o caso não deixa de ter a sua exemplaridade incómoda.

O livro de Kant é, francamente, mau. E com isto não estou a beliscar o mínimo que seja a importância do autor para a História da Filosofia (importância que se deve às suas três posteriores Críticas). Basicamente, Kant defende uma visão do prazer estético que não passa de lugar-comum (ou seja, estamos em presença de um homem sem originalidade nenhuma quanto à sua sensualidade), e que a maior parte das vezes descamba no machismo (por exemplo, Kant defende que a mulher, quando jovem, não deve cultivar muito o intelecto sob pena de perder a beleza e, pior ainda, que a mulher deve abster-se de praticar o mal não por sentir que este é errado mas porque o pressente feio...), no racismo (acusa os negros de serem incapazes de transcender a animalidade), na xenofobia (para ele, os holandeses são um povo insensível), etc. Por vezes surge alguma intuição de romancista que torna a leitura agradável, assim como belos momentos de prosa reaccionária que fariam sorrir um Pedro Mexia, mas, de uma maneira geral, quase tudo o que o livro comporta já deveria estar esquecido e bem enterrado.

No entanto, eu defendo esta vaga opinião de que os pensadores relevantes, por entre o chorrilho de disparates que nos legaram, quase todos formularam meia dúzia de ideias cuja justeza e generosidade são de tal modo grandes que se tornaram capazes de atravessar todas as épocas. Por exemplo: o intelectualismo moral de Sócrates, ou seja, a ideia de que quem conhece, na verdade, o que é o Bem, é incapaz de não o praticar. À primeira vista, isto parece absurdo: não é por se dizer ao criminoso que a sua acção é racional e moralmente reprovável que ele vai deixar de a levar a cabo. No entanto, se acrescentarmos àquele pensamento toda a História que a seguir se desenrolou, talvez compreendamos que ele só cresceu em relevância. Pois se toda a estratura mental (toda, incluíndo o inconsciente freudiano, a memória de Proust, o espírito de Agustina, etc., etc.) souber (e já temos noção de que o saber não se restringe à memória e à cultura) o que é o Bem (independentemente da definição desse Bem), de facto o corpo não consegue praticar o Mal que se lhe opõe. O conceito é tão amplo que, mesmo se alguém contra-argumentar com o exemplo de um objector de consciência que, numa guerra, subitamente desatou a praticar actos da maior crueldade, podemos continuar a defender aquela teoria dizendo que esse indivíduo, dadas as circunstâncias a que foi submetido, deixou de saber o que era o Bem. Porque o saber não é armazenamento enciclopédico, mas precisamente aquilo que existe no mais íntimo de cada intelecto.

Mesmo antes de escrever a sua crítica do sublime (pelo que sei, esta sim é uma prosa recomendável, e constituirá a minha próxima leitura), Kant intuiu as relações entre estética e ética. Mais, defendeu que a ética não deve ser o resultado de uma compaixão espontânea e flutuante, mas o produto de uma racionalidade sincera e profunda. Não sei até que ponto concordo com esta incólume fé racional, mas a verdade é que isto prova como são muitas vezes os racionalistas quem mais batalha a favor da liberdade humana (ao contrário do que se apregoa em era pós-moderna).

Mas basta aquela ideia de que o mais sublime dos objectos sublimes é o Homem, para que este livrinho, invadido por todas as mediocridades do senso comum da época, mereça a atenção daqueles leitores cuja curiosidade é inseparável da responsabilidade.

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