quarta-feira, setembro 17, 2008

O bigode amador

Numa série de ficção televisiva portuguesa, o actor João Reis interpreta o seu papel munido de um imenso bigode que, supostamente, o deveria fazer parecido com a personagem a que esse papel se refere: Camilo Castelo Branco. Ora, este parece-me ser um caso típico de amadorismo.

Só que o amadorismo não é só português, mas muito especificamente hollywoodiano. Ah!, aquelas sessões de três horas de maquilhagem com que os making of nos presenteiam... E como gostam as Charlizes Therons deste mundo de assombrarem os seus espectadores com máscaras de monstro de feira, para depois aparecerem com silhuetas de vaidade a receberem os seus calculados Óscares.

Quando Jeanne Moreau interpretou o papel de Marguerite Duras, ela fez questão de não insistir demasiado na tecla da parecença (física ou comportamental) entre actriz e personagem. Em vez disso, resolveu viver o papel da escritora.

João Reis é um actor que toda a gente conhece: do teatro, do cinema, da televisão. Conhecemos o seu rosto, os seus tiques, a sua gestualidade, a capacidade de exprimir ou de ocultar emoções. Até temos noção da maneira como veste, sabemos algumas opiniões, desvendamos certos sentimentos. O bigode que lhe foi pregado no rosto (com a ajuda de um gosto black & decker), apenas para obedecer à iconografia do autor de "Amor de perdição", parece pertencer a esse rosto tanto quanto um véu de carmelita descalça poderia cobrir a nuca de Odete Santos. Parece uma paródia à arte da maquilhagem. Nenhuma criança dirá olha o Camilo, mas sim olha o João Reis disfarçado para o Carnaval.

Eu acredito que o actor é um criador, não um virtuoso do circo. E por isso, defendo que todo o trabalho que ele faça deve partir da sua própria verdade, como sempre acontece nos actos criativos. Assim, se uma personagem não pode ser extraída de um actor por um processo de violentação das intuições desse actor, de igual modo o aspecto da personagem não pode ser aposto ao aspecto do intérprete que lhe dá corpo sem consideração por esse corpo. Não digo que se deveria ter suprimido o bigode (questões de reconstituição de época e de citação visual referente ao escritor), mas teria sido melhor esculpir o bigode a partir do que o próprio rosto de Reis tinha para oferecer.

Tudo deve ser feito de modo a que a criança diga olha o João Reis a (re)viver o Camilo Castelo Branco.

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