quarta-feira, setembro 17, 2008

O ACTUAL 21

"Before the devil knows you're dead" - Sidney Lumet


Sidney Lumet faz parte de uma geração de cineastas que não sentiram necessidade de dobrar o seu discurso liberal numa atitude de vanguarda formal. O que, aliás, não me incomoda demasiado.

Este seu último filme parece-me, francamente, clássico. Veja-se: toda a modernaça composição fragmentária (que, de resto, já tem barbas) é apenas um ersatz da estrutura policial: a figura do detective fica oculta e é substituída pela montagem (que vai progressivamente revelando, não os culpados de um crime, mas as motivações e consequências desse crime). É um puzzle que se concerta na perfeição. O filme até tem um final feliz: a personagem de Ethan Hawke (a mais positiva de todas) livra-se da polícia, do perseguidor, do pai, fica com o dinheiro e talvez até se junte à mulher que ama...

O filme é clássico ao ponto de, na primeira vez que o realizador mostra a personagem de Philip Seymour Hoffman (a mais trágica de todas) a submeter-se às drogas duras, o fazer de modo a sugerir uma cena homoerótica (Hoffman começa por se despir, o rapaz que o atende parece uma gueixa com mau corte de cabelo), exactamente como Otto Preminger fez em "The man with the golden arm" (só que, no tempo de Preminger, essa era uma opção agressiva, enquanto agora ela se revela, pelo menos, inócua). Lumet nem deixa de picar o ponto da morte do anjo, recurso narrativo que alimentou um chorrilho de melodramas (e que, claro, tem de se referir sempre a uma mulher, e se possível, a uma figura materna).

Mas, afinal, o que é uma família? É uma célula colectiva que resulta de uma fundação física (o acto sexual entre o pai e a mãe), e que lentamente abafa esse protagonismo do corpo (o aleitamento, a ternura infantil) a favor do contacto moral (o afecto, a memória, a disponibilidade, etc.). No âmbito da nossa cultura, o grande interdito que pesa sobre a estrutura familiar é o do regresso dos seus membros ao domínio do físico: veja-se, as grandes tragédias clássicas estão cheias de casos de incesto, mas também de parricídios e infanticídios (que são o outro lado da moeda do contacto corporal).

Ora, o que o filme mostra é um irmão (Hoffman) que se coloca na posição de autor moral duma inofensiva ofensa aos pais (que nunca poderia permanecer inofensiva), e um outro irmão (Hawke) que ocupa o posto de autor material. No entanto, no momento da acção, Hawke recua e torna-se autor moral (pede a outra pessoa que produza a ofensa física). Já Hoffman, quando a realidade lho exige, torna-se autor material de uma catrapazada de senguinolentos crimes, estando mesmo disposto a assassinar o irmão. Isto permite-me afinar um post recente: há autorias morais que, no fundo, são autorias materiais, e vice-versa.

O moralismo de Lumet leva-o a diabolizar Hoffman (veja-se a agressividade da cena em que ele calmamente destrói os objectos da sua casa) porque ele quebra o interdito. Em compensação, Hawke é libertado porque, quando em presença do objecto da sua acção sem ética, se torna incapaz de mal (e por isso é mais humano).

Enfim, todos eles são uns trastes na prossecução dos seus actos criminosos porque nenhum sabe lidar com a sua própria verdade. Lumet fez um filme inteligente, mas algo insensível à discussão contemporânea sobre a família (onde o que está em causa é a valorização da sua componente afectiva em detrimento da obsessão atávica da biologia).

2 comentários:

Mariposa Roja disse...

Olá Ludgero!

Interessante o seu comentário. O filme, com excelentes actores, falha por conter uma amálgama de clichés.
Começa logo com uma cena de sexo para agarrar e esmagar o público e a partir dali batemos na fórmula continuamente. O filme recupera o mito clássico do pai que assina o filho, primeiro por não o valorizar em criança, depois como vingança justiceira de ter contribuído para a morte da mãe e, enfim, por ser uma cria mal parida.
Não gostei porque é mais um produto comercial.

pedroludgero disse...

É assim: o cinema de género define-se por ser uma amálgama de clichês. O Deleuze dizia mesmo que, a partir de certa altura, o cinema americano se tinha tornado uma máquina de repetir clichês.

Mas isso não significa que não se consiga utilizar o género para fazer algo de válido (Hitchcock, John Ford...).

Penso que a cena de sexo no início serve para apenas colocar o filme sob a égide do "físico". Repare que tudo acaba com um assassinato (vamos da concepção à morte). Nem me parece que as banhas do Philip Seymour Hoffman sejam suficiente incentivo comercial...

Mas, tem razão: não vale a pena esgrimir muitos argumentos a propósito de um assunto tão menor.