segunda-feira, setembro 29, 2008

No escrínio 42

Poema "Piscar de olho" de Benjamin Péret, traduzido por Regina Guimarães:










Voos de papagaios varam-me a cabeça quando te vejo de perfil

e o céu de gordura estria-se em relâmpagos azuis

que traçam o teu nome em todos os sentidos

Rosa de chapéu

e o chapéu é uma tribo negra disposta num lanço de escadas

onde os seios agudos das mulheres vêem pelos olhos dos homens

Hoje vejo pelos teus cabelos

Rosa de opala da manhã

e acordo pelos teus olhos

Rosa de armadura

e penso pelos teus seios de explosão

Rosa de charco verde de rãs

e durmo no teu umbigo de mar Cáspio

Rosa de eglantina durante a greve geral

e perco-me entre os teus ombros de via láctea galada pelos cometas

Rosa de jasmim na noite de barrela
Rosa de casa assombrada

Rosa de floresta negra alagada de selos azuis e verdes

Rosa de estrela de papel acima dum terreno ermo onde brigam crianças

Rosa de fumo de charuto

Rosa de espuma do mar feita cristal

Rosa



Os títulos dos poemas de Péret constituem todo um programa. Através do seu texto desajeitado, o poeta pisca o olho à mulher desejada como se a quisesse engatar sem grande sofisticação/literatura. Ao mesmo tempo, pisca o olho ao leitor num gesto de cumplicidade: afinal, quem nunca sentiu impulso erótico? E não será esse título também o sintoma de um olho congestionado pela enorme sensualidade que captou?

Quanto à técnica de escrita, o piscar de olho equivale à figura do zapping. Como a cabeça do sujeito lírico é atravessada por voos de papagaios (por imagens de tagarela: de poetastro) quando ele contempla o perfil do seu objecto, o que faz com que o nome da amada (a palavra Rosa) seja traçado no céu (gorduroso, pois quem disse que só as magras têm direitos?) em todos os sentidos, e como aparentemente não há maneira de, pela escrita, os mostrar todos de uma só vez, então é preciso mostrar esses sentidos um a um, em brevíssimas imagens, que se alternam por um simples piscar de olho (por um efeito de montagem). Já o defendi num outro post, a poesia é um movimento de liberdade-pálpebra perante o real (e de modo algum uma evasão).

Rosa escrita em todos os sentidos: nos cinco sentidos da percepção (cheira a jasmim, sabe a charuto, é dura como o cristal, faz ruído de greve ou de explosão, a visão é o próprio tema do poema), nos vários pontos cardeais (a escrita automática provoca relâmpagos indómitos em todas as direcções da folha de papel), e com diversos significados. Quanto a este último aspecto, veja-se que Rosa provoca o voo, a revolta, a manhã, o terror, a estagnação, a limpeza, a selvajaria, etc.

Conforme vai carregando o nome Rosa com toda uma épica de associações (até ele poder aparecer sozinho no fim, tornado sublime e infinito), o poeta discorre sobre o olhar. Quando diz que, na tribo do cabelo de Rosa, as mulheres vêem pelos olhos dos homens, e logo a seguir assume que ele próprio vê pelo cabelo da amada, ele assume que o amor é nada mais que a construção de um olhar-em-conjunto, uma solidariedade de perspectiva.

E por isso, cada imagem traz um elemento de ligação que constitui a sua principal força sedutora. Se a princípio o autor ainda tem que recorrer à conjunção copulativa para descrever o efeito do corpo-outro no seu próprio-corpo (como Rosa é uma manhã preciosa, especial portanto, ele já só pode acordar no próprio abrir dos olhos dela), logo logo isso é substituído pela fulgurância reprodutora que está latente na própria imagem.

Por exemplo, sendo Rosa um charco, o dormir do poeta no seu corpo faz com que, dentro desse charco, o minúsculo umbigo tenha o imenso tamanho (e a vitalidade) do mar Cáspio. Se a noite, mulher-a-dias do sono, é o lugar da lavagem do mundo com lixívia, Rosa redime-a com seu perfume de jasmim. E Rosa fica eglantina (silvestre, portanto), para acompanhar as actividades políticas. Ou então, enquanto floresta negra, é alagada de selos que, independentemente do que possam significar (espermatozóides?, luzinhas de animais desconhecidos?, a própria água que é sempre azul e verde?), a verdade é que trazem em si o traço semântico da epistolografia: da utopia da comunicação constantemente reclamada pelo grande poeta surrealista.

Por fim, como quem não é capaz de decidir entre o olho direito e o olho esquerdo (o existencialismo de Péret não é moral mas sim sensual), o poeta vê a amada sofrer uma sublimação química (o fumo do charuto é gasoso), para logo a seguir se solidificar em cristal.

Renovando toda a história da poesia lírica, Péret demonstra, à maneira de um cientista maluco, como dar, numa só palavra (a "Rosa" do fim), todos os sentidos que o real permite.



(Imagem retirada daqui)

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