sexta-feira, setembro 19, 2008

No escrínio 41

Poema "Lavagante" de Benjamin Péret, traduzido por Regina Guimarães:







"A crista de plumas da tua voz jorrando da sarça ardente dos teus lábios

onde o Cavaleiro de Oliveira arderia de prazer

Os gaviões dos teus olhares pescando incautos todas as sardinhas da minha cabeça

o teu hálito de pensamentos selvagens

do tecto espelhando-se a meus pés

varam-me de lado a lado

perseguem-me e precedem-me

adormecem-me e despertam-me

atiram-me pela janela para eu subir pelo elevador

e reciprocamente"



O poema evoca uma situação de brutal timidez perante um ser desejado. A expressão francesa rouge comme un homard equivale à fórmula portuguesa vermelho que nem um pimentão. O sujeito lírico sente um rubor semelhante àquele que o lavagante conhece quando é cozinhado vivo. Mas há mais do que isso: se o crustáceo é, de facto, presa, não deixa de ser também predador (as suas tenazes de poeta rebelde não enganam ninguém). A palavra-chave do poema é reciprocamente: os amantes são, ao mesmo tempo, presas e predadores um do outro.

De resto, o texto fala por si. Chamaria apenas a atenção para o bom achado da tradutora que fez equivaler, ao mártir francês chevalier de la Barre, o escritor português Cavaleiro de Oliveira (ambos perseguidos pela intolerância religiosa em pleno século XVIII), para o efeito lírico dos ritmos breves dos três versos começados por me, e para o desinteresse que o autor manifesta por todo o bom gosto (afinal, imagina a sua própria cabeça cheia de sardinhas).

Não sei se há, em francês, uma expressão que traduza a intuição que nós vociferamos como para baixo todos os santos ajudam, para cima é que as coisas mudam. Mas a intuição, essa tê-la-ão certamente. E veja-se como o poeta a subverte quando, por causa de uma ternura adolescente, se atira a si mesmo pela janela para se fazer subir, comodamente, pelo elevador: o livro onde o poema se inclui intitula-se "Je sublime".

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