quinta-feira, setembro 04, 2008

No escrínio 40

Poema "Fundo do mar" de Sophia de Mello Breyner Andresen:


"No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso."



Incluído no livro "Poesia I", este texto está nele colocado logo a seguir a um outro chamado "No alto mar". Como o fluxo e o refluxo das marés, a poesia de Sophia é dual, e assim, depois de uma visão do oceano como deserto, surge uma outra que o pressente sobrepovoado de risco. O mar, enquanto espaço de afeição primordial, permitiu que a visão da autora escapasse a um classicismo demasiado simples ou demasiado monótono.

Cada coisa bela que habita o oceano tem um monstro em si suspenso. A primeira estância indica que esse factor de risco (capaz de desencadear pavor) está associado ao devir metafórico: no fundo do mar, as plantas são animais. Note-se que a poeta evita a simetria perfeita quando logo a seguir diz que os animais são flores (estas são já uma especificação do conceito de planta, e por via da rima encontram-se visitadas por uma violência latente). Ou seja, mesmo ao ilustrar o absurdo pela figura redundante da inversão, Sophia obriga o poema à metamorfose contínua.

No entanto, a segunda estância não revela quais as metáforas que servem cada um dos seres nomeados. O que quer dizer que ela funciona como prenda para a imaginação do leitor: é este que tem de adivinhar qual o absurdo que abre as conchas redondas a rir (será um sarcasmo predador ou a lágrima cuja individuação o mar não permite?), qual o absurdo que baloiça o cavalo-marinho, etc. Por trás da sua aparente singeleza, o texto contém a modernidade como um monstro suspenso.

Curiosamente, para que eu possa continuar a defender a ideia de que a metáfora é o resultado da passagem do tempo na palavra (ler este post), Sophia argumenta com um dos mais belos dísticos da poesia portuguesa: Sobre a areia o tempo poisa / Leve como um lenço. Ou seja, todo o risco que o mar postula (e que a autora, ambígua, não define se é mau ou bom, ou seja, se combate ou se promove a aliança do real que ela assumiu como missão sua) resulta do devir latente no próprio tempo que, de leve e inofensivo, passa a hipótese de agitação.

E eu suspeito que, para Sophia, a metáfora, mesmo quando suspensa e silenciosa, não era um mero meio retórico mas um dos princípios essenciais de unificação da própria vida.



(Imagem retirada daqui)

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