quarta-feira, setembro 24, 2008

Mais uma no cravo (com final cândido)

No fundo, tanto os ideólogos de direita como os de esquerda acreditam demasiado no velho pai Marx: ambos vêem na opção por um modelo económico o garante do equilíbrio global da sociedade a que esse modelo vai ser aplicado. Não é que eu seja lunático ao ponto de pensar que o pão cresce nas árvores: tenho noção de que a economia é (ou deveria ser) o nobre esforço para garantir as diversas formas de sobrevivência colectiva (e individual), e que por isso é uma dimensão essencial do conhecimento e da prática humana.

O problema está quando a eventual simpatia por um modelo económico é substituída pela . Repare-se como os irredutíveis homens de direita (como este corvo que agora repete nevermore n' "O eixo do mal") substituíram a fé cega no cristianismo pela fé cega no capitalismo. Tudo coisas de alto risco, claro...

Já não é preciso criticar os terríveis excessos a que a ideologia de esquerda chegou no século XX. Por isso, parece-me estranho que quando alguém defende um modelo socializante de economia (sobre cuja eficácia eu não me sei, profundamente, pronunciar), o irredutível homem de direita faça o inevitável sorriso paternalista e, em vez de discutir com abertura e seriedade, comece logo a falar de planos quinquenais, revoluções de 1917 e outros gulags. Alguém aceitaria que se criticasse o dedo de Paulo Portas acusando-o de já ter eventualmente folheado o "Mein Kampf"? No fundo, o sarcasmo destina-se a ocultar o facto de que o pensamento de esquerda também evoluíu (e de evitar qualquer contributo válido vindo desse lado da cortina de penas).

De tudo isto se extrairia que eu seria um militante do Partido Socialista na sua fase maiêutica (quando já o mundo está todo numa de epidural...). Nada mais terrivelmente errado. Nos próximos tempos, continuarei a votar em branco (e até nem li o camarada Saramago). Pois se era natural que o socialismo perdesse a ortodoxia da sua fundamentação lendária (vivemos uma fase de miscigenação a todos os níveis, e já se percebeu que isto de viver é mais jogo de cintura em corda bamba do que teimosia de aristocrata), o facto é que a perdeu com tanta deselegância e oportunismo que, para mim, tornou-se um mero post-scriptum ao fim da história.

Quanto ao capitalismo, não me convence. Não estou satisfeito com a liberdade-ração com que me domesticam. Então não é que o eminente Damásio aceitou conferenciar perante um conjunto de iminentes homens de negócios desejosos de saberem como controlar melhor o cérebro dos seus potenciais consumidores? Não, não vejo, nesta sociedade que me apresentam, a possibilidade de realizar as minhas principais ânsias individuais.

E nem vai aparecer nenhum Karl Messias a descobrir a roda-de-pólvora. Terá de ser a história, e toda a sua improbabilidade, a agitar um pouco o estado sempre sólido das coisas.

Enfim, tudo isto para dizer que eu gostava que me apresentassem programas de governação com toscas mas genúinas propostas destinadas a tentar minorar o meu sofrimento.

1 comentário:

paysanxxi disse...

Aqui está um texto perfeitamente "Marxiano".
O "marxismo" é ( desde sempre ) outra coisa, uma ortodoxia que envergonharia o tio Karl. Estamos de acordo.