quarta-feira, setembro 24, 2008

For all those gay manuels

Num recente debate da SIC Notícias, um deputado do PCP e um deputado do CDS chegaram ao consenso (exaltado) de que há assuntos políticos muito mais importantes e urgentes para resolver do que a legalização dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Os opostos atraem-se sempre quando o que está em causa é a liberdade da atracção.

Os comunistas têm uma larga tradição de só se dedicarem aos assuntos importantes. Ficou famoso o seu desprezo pelos criadores surrealistas que pretendiam juntar-se aos esforços revolucionários na primeira metade do século XX. Peço que descontem a boçalidade simplista do que vou dizer, mas a verdade é que cada vez mais eu vejo o comunista como o tipo que, quando encontra uma criança pobre (sublinho: pobre, não faminta ou atacada de malária...), em vez de lhe dar um brinquedo, lhe entrega os papéis para o Plano Poupança Reforma. É um casto, e só não faz votos porque a democracia lhe foi imposta por humilhação histórica. A sua sisudez de inquisidor é a prova de que a sua mítica missão libertadora era incompleta e de bondade francamente duvidosa.

A direita deve estar aflita, de tal modo os valores (a ausência de possessivo é sempre propositada) estão envolvidos numa cena de perseguição e fuga com o papa-móvel. Mas sobre a direita, o post acima disparatará.

De qualquer modo, a estratégia é comum: para que o assunto não seja resolvido de vez, anuncia-se a sua irrelevância. O primeiro profeta-ao-contrário que me deu o prazer de ler este discurso apropriado a um deus pós-novo-testamento foi... o reverentíssimo João César das Neves, e todo o processo atingiu requintes de vaticana hipocrisia com a recusa de Sócrates em debater o problema porque, sendo este demasiado polémico, e tendo o PS de acabar por cumprir a sua tradição de vanguarda, isso poderia trazer desvantagens nas próximas eleições. Desculpem, não era por isto: só não estava no programa.

Claro que não, é um: encore?