sábado, setembro 06, 2008

Escrever em inglês

No meu livro (não publicado) "nu abrir em nó", escrevi um conjunto de Canções como se fossem medievais que, por uma questão de actualidade, em vez de divagarem entre o português e o galego, foram compostas num compromisso entre a nossa língua e a língua inglesa. São textos que exigem a compreensão das duas falas e que funcionam como combate (e fascínio...) contra a hegemonia anglófona.

No entanto, recentemente escrevi mesmo um poema (uma "lullaby") em inglês. E a experiência foi deliciosa (palavra escolhida a dedo). Para quem é estranho a uma língua, o potencial criativo que ela oferece funciona como pura possibilidade de jogo. O francês, por exemplo, é demasiado próximo do português. Mas a língua de Shakespeare tem recursos (as portmanteau words, os phrasal verbs, a própria possibilidade de inventar verbos a torto e a direito, a liberdade no uso das preposições) que, dada a sua distância do meu verbo original, abre pelo menos a ilusão de um caminho outro para a minha escrita.


(Imagem retirada daqui)

1 comentário:

Miguel Drummond de Castro disse...

Pois é a língua desses ilhéus, faux français, e saxões decaídos permite isso, e ao escrever na língua desses bárbaros que roubaram palavras a todas as línguas não se tem a espada de Damócles da tradição sobre a cabeça. You can say whatever you want, unimpeded by your own set of prejudices, opinions and options. Thus some measure of linguistic freedom and innocence are bound to appear.


Gary Snyder pensava, no entanto, que a língua a procurar na língua inglesa era o gaélico. Apoiava-se em Yeats, na tradição bárdica e o pai do LSD, Thimoty Leary chegou a dizer que a língua do código genºetico era o gaélico.

Tudo isto é interessante porque sugere que o inglês actual é "às camadas" and "the core", o núcleo mais fundo, a matriz, é gaélica, ou seja céltica.

Daí talvez venha o nosso fascínio luso, não pela diferença, mas pela semelhança, visto que a matriz celta também está e viva espera-se no meio da nossa língua, malgrado acordos e desacordos ortográficos, essas tautologias inanes cíclicas.