domingo, setembro 14, 2008

Direitos & deveres

No último número dos Cahiers du Cinéma, o crítico Charles Tesson repegou numa velha distinção para defender aqueles cineastas que acham que têm deveres para com o povo (o primeiro Rossellini, Satiajit Ray, Youssef Chahine, etc.) em desprimor dos realizadores que acham que têm todos os direitos (basicamente, a Nouvelle Vague). Para além da falta de exactidão do raciocínio (os mais revolucionários filmes de Rossellini foram os mais pessoais que ele fez; Godard fartou-se de falar, com uma lucidez combativa, dos mais variados assuntos políticos), isto parece ser mais uma moda crítica. Onde, mais uma vez, se estabelece uma distinção completamente artificial. É um pouco como achar que uma comédia musical não tem conteúdo político, ou que os filmes de Oliver Stone são todos muito úteis.

Qualquer psicólogo facilmente esclarecerá que nenhum indivíduo consegue manter uma relação equilibrada com outra pessoa se não estiver bem resolvido consigo mesmo. Aliás, a relação com o outro é um misto de direitos e deveres que são praticamente indissociáveis uns dos outros. Quando um criador faz o seu trabalho a partir de uma total exigência de liberdade, ele não está a trabalhar apenas para si: cada direito conquistado por um indivíduo pode ser exigido, por contágio, por todos os seus pares. Aliás, quando os criadores assumem uma liberdade radical (a obra de Sade, o filme "Branca de neve" de João César Monteiro), o povo de imediato reage com agressividade perante o artista porque não tem liberdade suficiente para sonhar os seus mais profundos e possíveis direitos.

Por outro lado, eu poderia argumentar que um cineasta que age " por dever", não só corre o risco do seu discurso ser frio, sem substância emocional, como se coloca numa linha ideológica de "responsabilidade e sacrifício" que tem a ver com o catolicismo, o patriotismo, o comunismo, e não sei quantos mais ismos de bondade duvidosa (e que muitas vezes deram origem a tiranias de formas e feitios vários).

Mas o assunto não se coloca assim. O cinema tem também uma função política, social, histórica. O neo-realismo foi essencial para que a Itália olhasse para os escombros do seu fascimo e da guerra, e a partir daí iniciasse o trabalho de auto-reconstrução. Por outro lado, não defendo propriamente um cinema auto-biografista, claramente próximo da complacência, do exibicionismo, do autismo...

Cada projecto de cinema é um caso específico. Cassavetes fez um cinema íntimo que arrasava a emotividade dos seus actores (questionando todas as instituições pré-fabricadas pela sociedade para gerir o afecto). John Ford fez um cinema épico essencial para a definição cultural colectiva dos Estados Unidos da América (mas que personagens, que hinos à truculência do espírito!). Godard começou por filmar auto-ficções (que discutiam tudo, do existencialismo à sociedade burguesa, da política dos anos sessenta à emancipação feminina). Satiajit Ray filmou a dificuldade de sobrevivência na sociedade indiana (mas o mais belo filme dele que eu vi até agora é o "Charulata", uma análise do casamento). E etc.

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