segunda-feira, setembro 15, 2008

A César o que é de César

Há um outro aspecto inquietante em "A sibila".

Agustina nunca separa o espiritual do material, enquanto forma única de estar neste mundo (e fá-lo ao arrepio do angelismo da ortodoxia dos discursos cristão e marxista). Por isso, uma das questões decisivas que se debate no romance é o destino da herança de Quina.

Custódio, rapaz que a sibila criou (e que, a despeito da boçalidade, manifesta um princípio não desenvolvido de apetência pelo espiritual), quer ser o seu único herdeiro material. Um dos últimos capítulos do livro mostra-o a suplicar esse privilégio à moribunda com tanta intensidade que esta, sentindo-se torturada, começa a desejar a morte com urgência para não ceder à tentação de mudar o testamento. Por outro lado, Germa, filha de um irmão de Quina, rapariga com grande potencial de artista e com uma relação de amor-ódio com a província, não se esforça por fazer valer nenhuma prerrogativa familiar.

Mas a sibila é firme: o grosso da riqueza vai para Germa, não porque ela a ame (ao contrário do que acontece com Custódio), mas porque Germa é sangue do seu sangue (o que demonstra a mentalidade rude de Quina). Custódio fica apenas com o usufruto de algumas propriedades.

Processo complexo este: Quina estabelece o destino da sua riqueza com base em critérios biológicos (é o seu realismo material), e iliba o verdadeiro amor de todas essas contingências terrenas. A aparente frieza é, afinal, um acto de exigente coerência: no momento decisivo da morte (e só aí o podemos conseguir), a sibila contraria todo o seu historial de contradição.

E a coerência só pode degenerar em crueldade: Custódio acaba por suicidar-se, e Germa... Germa talvez desenvolva o seu potencial, ou talvez não: neste mundo, o dinheiro é um negócio com muito menos risco que o espírito.

1 comentário:

Antero Barbosa disse...

A interpretação pode ocorrer assim: na primeira leitura condenamos Custódio; na segunda subsiste a dúvida; na terceira fazemos a sua defesa.
O que pode ocorrer em função da idade da leitura e da evolução económica transcorrida.
Esta morte de Custódio é mero acaso, intenção ou provocação?
Ficará, obviamente de fora a autora e a escritora: se a ficção pretende o verosímil, este é triplo.
Quem não pode ficar de fora é a emoção.
E muito menos a narradora.