sexta-feira, setembro 19, 2008

Crónica da Avó Materna

A minha avó materna não queria morrer.

Aos vinte anos, deram-lhe alguns meses de vida, e ela prolongou-os até ultrapassar as oito décadas de hipocondria. Dela se poderia dizer com justeza que mulher doente é mulher para sempre. Considerava-se médica de si mesma, perseguia todos os licenciados em medicina da cidade do Porto, negava-se a tomar um medicamento cuja bula prometesse uma leve azia como efeito secundário, mas morrer é que não era assunto.

Foi com as mulheres da minha família que eu aprendi a ser feminista. Durante a minha infância, a influência da avó Nena foi a do mais puro kitsch de ternura. Por exemplo, as pataniscas que ela fazia, mais pequenas, fofas e recheadas que the real thing, eram entre nós conhecidas como iscas deliciosas. À noite, chamávamos rezeiras àqueles momentos de despedida não assumida que se jogam antes do sono separar adultos e crianças durante uma breve eternidade - eu, na altura um menino exemplar, queria mesmo rezar (mas logo a seguir me perdia em pensamentos eróticos); já o meu irmão, um verdadeiro desastre de (filo)sofia, preferia contar anedotas. Enfim, um deus iradamente delicodoce insinuava o elo familiar por entre ladainhas e gargalhadas com destino comum.

Mas a minha avó nunca ultrapassou essa fase. Quando os netos se tornaram adolescentes (eu, um fogoso rebelde interior; o meu irmão, falando e agindo pelos cotovelos dos dois), nunca nos perdoou o afastamento que para nós foi essencial. Desde então, a minha relação com a avó materna tornou-se combativa.

Com os anos, o elo tornou-se romanesco: quando mais pugnávamos por causa de afectos amolecidos, orgulhos inconsúteis ou tomadas de posição moral, mais a relação se tornava forte, mais se distanciava da lisura de conveniência para se parecer com o verdadeiro laço efectivo que dois adultos conflituantes podem negociar.

Acompanhei a sua degenerescência física e intelectual com lucidez. Mas antes que o tempo impusesse uma despedida sem retorno, resolvi realizar um sonho que a minha avó tinha desde sempre: ir a Paris. E assim fui, com os meus pais e com uma octogenária frágil e teimosa, visitar a luz difusa da capital francesa. Claro que Paris pouco lhe interessou (exceptuando talvez o passeio de Bateau Mouche). Todo o seu amor sem cultura foi canalizado para a Eurodisney, e acima de tudo para esse Além-de-todo-o-Kitsch que é o túnel de bonecas onde nos cantam que it's a small world.

A alegria da minha avó (tivemos de repetir a visita) deixou-me um sabor sereno na saudade futura: consegui devolver uma cegonha à terra Natal.

4 comentários:

dora disse...

luminoso post, Pedro!

pedroludgero disse...

Obrigado.

Amet disse...

Concordo. Aqui deu-se (à) luz especial.

pedroludgero disse...

Obrigado também, André.