quarta-feira, setembro 24, 2008

Arte poética: precisa-se

Alguns poetas reclamam irreverência e originalidade quando expelem textos com montes de palavrões (ou até quando expelem montes de palavrões com uma moldura-texto a dar caução à coisa).

Devo dizer que o palavrão é uma categoria verbal demasiado preciosa para ser assim desprestigiada. No seu uso quotidiano, o palavrão serve para manifestar revolta (por exemplo, eu só os liberto no cume do desespero), para afirmar o género (ainda hoje há meninas que os consideram uma reserva de virilidade), para revelar a classe social (o trolha e o arquitecto usam os palavrões de modo diverso), para catalisar a obscenidade, para ferir o inimigo, etc. O palavrão tem, pois, para além de uma evidente função social, uma grande força expressiva.

Ora, tudo o que é expressivo deve ser usado de forma expressiva. Nesse aspecto, os palavrões assemelham-se às palavras fofinhas (coração, alma, sete-estrelo, lápis-lazúli): o poeta deve usar esses recursos com a mesma parcimónia com que o cozinheiro insere especiarias na sua receita. Os palavrões (ou as palavras fofinhas) devem ser inscritos no poema de tal forma que o sentido deste, a sua musicalidade, a sua violência expressiva, sejam radicalmente alterados e empobrecidos se essas palavras lhe forem retiradas.

A maior parte das vezes, porém, não é isso que acontece: os fuck fuck fuck and fuck again poems são apenas evidências da falta de imaginação.

Quando eu escrever os textos do meu micro-heterónimo Wolfgang Amadeus Mozart, tentarei usar termos como: crisálida-de-peidinho, alma-que-o-pariu, ou poalha-de-colhões.

Sem comentários: