quinta-feira, agosto 21, 2008

A room with a view



































Houve um tempo em que uma das principais preocupações de um turista quando chegava a um hotel era a solicitação de um quarto com vista sobre. Claro que então os turistas eram em menor número e as vistas sofriam de pouco ruído...

Fui ao País de Gales para poder compreender a vista que o escritor Dylan Thomas (cuja poesia pretendo começar a traduzir) tinha da casa onde morou os últimos quatro anos da sua vida (um período de grande fecundidade onde ele escreveu os seus últimos e magistrais poemas e a obra dramática "Under Milk Wood"). Presumo que um homem (e muito especificamente um poeta) se pode também definir pela riqueza que ofereceu aos seus sentidos.

A casa, conhecida como The Boathouse, foi-lhe cedida por uma ricaça qualquer (Thomas nunca foi seu proprietário), e fica situada em Laugharne (pronuncia-se Laárne), no sul da região, de frente para o estuário do rio Tâf.

Dizem os Baedekers do presente que Laugharne se mantém quase idêntica ao período em que foi habitada por Thomas e sua família (na verdade, o poeta viveu vários períodos curtos no local, mas só se fixou definitivamente lá em 1949). Eu diria que é uma vila com todos os benefícios da província e quase nenhuns dos seus defeitos.

Laugharne é pequena mas não claustrofóbica. Tem todas as condições de um lugar civilizado. A intimidade entre as pessoas cria-se de imediato. Mesmo um tímido inveterado como eu, ao segundo dia, já conhecia várias pessoas. Mais, quando eu me preparava para me vir embora, o carteiro perguntou-me, preocupado, se eu tinha apanhado um autocarro no dia anterior... Já sabia coisas da minha vida. Tem poucos restaurantes, mas todos distintos uns dos outros, cumprindo funções diferentes: há o pub rasca, o restaurante onde se comem pêssegos recheados e se ouve bossa nova, a loja onde se pode comer marisco, e a casinha que, lado a lado com venda de compotas regionais, serve deliciosos bolos. O ar é puro. Tem um castelo em ruínas (como sempre acontece nas Ilhas Britânicas), suficientemente dramático para não ser apenas mais um. E toda a linha costeira, quando não se sabe bem se a água que se nos oferece ainda pertence ao rio, ou já ao mar (ou aos outros dois rios que também desaguam no mesmo sítio...), é de uma beleza assombrosa.

Thomas gostava do local, mas por vezes sentia necessidade da grande cidade, e ia a Nova Iorque. De qualquer modo, em todos os lados onde esteve, dedicou-se com afinco à sua grande actividade existencial: beber. "Under Milk Wood" terá sido baseada na vida dos populares de Laugharne (ver este post).

A casa, agora um museu (mau como todos os museus do género), não tem nada de particularmente relevante. E a minha peregrinação literária (como todas as peregrinações do género) é ridícula (aliás eu também fui a Swansea e a Cardiff). Mas a verdade é que, quando deixei uma mensagem no livro a isso destinado em The Boathouse, só me lembrei de escrever: "Mr. Thomas deserved this view".

Não vou, claro, fundamentar a importância de uma vista. Seria tão tolo como se quisesse fundamentar o sexo.


(Imagens minhas)

2 comentários:

Miguel Drummond de Castro disse...

Belas fotos que captam um pouco a essência celeste e líquida do lugar. Nada como a ida às fontes. Como era o whysky?

pedroludgero disse...

Por acaso, não bebi whisky... Quando vou à Grã-Bretanha resolvo beber as minhas duas ou três cervejas anuais (porque não aprecio cerveja). Por isso, foi mais "pints of Guiness" do que whisky...