sábado, agosto 02, 2008

O INACTUAL 26

"Blade Runner" - Ridley Scott (1982)



A alegoria latente neste famoso filme de ficção científica está suficientemente esvaziada e monumentalizada para não poder ser reduzida a um sentido único. A narrativa da revolta dos replicants (robôs perfeitos mas condenados a um tempo de vida demasiado exíguo) pode ser lida de diversas maneiras:

1. Enquanto denúncia da irresponsabilidade generalizada da acção humana.

2. Enquanto denúncia da desconfiança política que o Outro sempre gera; ou, ainda mais justamente, enquanto exorcismo daquela dificuldade que todos sentimos quando temos de distinguir quais os seres que, apesar de terem aspecto humanóide, são de facto humanos.

3. Como uma advertência contra a ilusão de triunfo sobre a efemeridade (a tentativa de adiar a morte, por parte dos replicants, só os leva a apressar essa mesma morte).

4. Ou então (e esta parece-me ser a leitura mais profunda de todas), como descrição de uma Humanidade que banalizou o sofrimento moral da sua mortalidade (o polícia sofre fisicamente, mas os replicants sofrem tragicamente). Daí a descrição da Terra como um planeta em decadência.

No entanto, o filme vale sobretudo pela consistente, imaginativa, ampla e deveras pungente reinvenção do que pode ser um espaço urbano (a referência parece-me ser "Metropolis" de Fritz Lang). Seja de quem for a responsabilidade (do production designer, do director de fotografia, do realizador que nunca mais fez nada de relevante posteriormente?), o facto é que o filme consegue inventar uma nova imagem da Cidade. E fá-lo através de uma estética barroca (não o considero um objecto look...), o que é pouco valorizado pela crítica actual (até porque o barroco muitas vezes arrasta consigo o mau gosto, como acontece em Fellini ou Greenaway).

É pena que Hollywood tenha transformado toda esta imaginação visual num academismo sufocante. Mas o momento inaugural não pode ser negligenciado.

Sem comentários: