quarta-feira, agosto 27, 2008

O ACTUAL 20

"Aquele querido mês de Agosto" - Miguel Gomes


Ainda bem que Miguel Gomes não conseguiu fazer o filme que pretendia fazer. Parece-me que, por si só, o melodrama projectado não teria força suficiente. Assim sendo, este é provavelmente o melhor objecto de cinema que o realizador já cumpriu.

Da mesma forma que o livro "Lisboaleipzig", de Maria Gabriela Llansol, se articulava como a passagem de um diário a um romance, "Aquele querido mês de Agosto" dá corpo à hipótese teórica da metamorfose de um filme documental em plena ficção. Ora, o que Miguel Gomes consegue é, pela forma como concretiza o documentário, gerar no seu espectador a urgência da ficção.

Toda a primeira parte da obra padece de violência latente. Os dois planos que a esse respeito mais me tocaram (dada a sua subtileza) foram: o caçador que aponta a sua espingarda na direcção dos moinhos eólicos na paisagem, e a canção de Toni Carreira acerca dos sonhos infantis utilizada como banda sonora de um plano que segue o percurso de um carro dos bombeiros. Mas todo o documentário acusa essa violência (a sobrevivência perigosa do Moleiro, o javali ensanguentado, as histórias de crime que fazem a mitologia rural, etc.) que, por si só, é o que gera o mencionado desejo de ficção.

Assim como as canções (pimba) são fantasmas que assombram a paisagem, a ficção (o mundo dos desejos eróticos e suas flutuações sentimentais) apõe-se ao documentário como se fosse um espectro. A própria ficção é uma matrioska de outras ficções, cada vez mais profundas e irreais (como a história do rapto da figura materna por extraterrestres, utilizada para o pai se enganar a si mesmo quanto ao facto de ser um marido traído e abandonado). O problema narrativo (a tensão incestuosa entre pai e filha) só se resolve com o regresso a uma violência decisiva (a possibilidade de morte pelo fogo). Quando o malogrado namorado (e primo) da protagonista aquiesce que salvou a vida do tio, quer-me parecer que ele está a dizer que aquilo que fundamentalmente salvou foi a relação pai-filha da sua deriva patológica.

A passagem de documentário a ficção significa, neste filme, a passagem da latência à exposição. É curioso, aliás, que todo o segmento documental funcione com uma estética rádio: locutores em off cujo rosto quase nunca vemos, efeitos de mistura sonora a imitarem as técnicas radiofónicas, a proliferação de canções. A imagem funciona apenas como comentário ora descritivo ora irónico da dimensão auditiva. Quando surge a segunda parte (o cinema), a imagem passa a assumir o impacto decisivo, e a violência exibe-se na sua plenitude ao mesmo tempo perturbadora e redentora.

Um filme com menos Verão do que seria suposto, este, onde um grupo de tolos se lança ao cinema com a distância imperturbável de uma comédia perigosa.

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