quarta-feira, agosto 27, 2008

Crónica do Avô Materno

Quando eu era miúdo, não gostava de dormir: especialmente durante a noite... Por isso, sempre que, estando já deitado na cama a horas decentes para qualquer infância, eu ouvia o carro dos meus avós maternos a chegar a minha casa, isso constituía um momento de imaculada felicidade. Por vezes, a visita dava mesmo direito a curtir a insónia longe dos lençóis (apesar dos protestos da minha mãe); outras vezes, era só a minha avó que me visitava com o seu carinho excessivo (os avós maternos sempre foram mais importantes para mim do que os paternos, pois estes tinham os meus primos para se ocuparem). Seja como for, aquele zumbir carnal do automóvel era inconfundível para mim, e para sempre me marcou como uma delícia pueril (e pavloviana, diga-se).

O carro era um prolongamento do BuQuim. O senhor conservava-o como se fosse um objecto precioso, destinado a um convívio com o tamanho da vida inteira. Era um Ford Cortina XL (parecido com o da imagem), espaçoso, elegante, absolutamente fiável, capaz de vexar qualquer algodão inquisidor de limpeza. Era um carro antigo, e a relação do meu avô com o carro era uma relação antiga. Aliás, todas as relações que o meu avô constituiu funcionaram segundo o mesmo modo recto e ancestral.

O meu estranho nome Ludgero (que, ao contrário do que é costume em empresários, fotógrafos ou médicos, não é um apelido) foi herança sua. Só que o meu avô não era meu avô real: a minha mãe não foi criada com os seus verdadeiros progenitores, mas com uma tia e o marido desta (o tal Ludgero). Ora, não só a minha mãe sempre assumiu a verdadeira filiação perante os seus pais de afecto (que nunca chegaram a legalmente adoptá-la), como nem eu nem o meu irmão alguma vez conhecemos outros avós maternos que não fossem esses (a avó verdadeira morrera antes de nós nascermos, e o avô não era bem vindo). Ou seja, o meu avô materno não me deu o seu sangue, mas o seu nome.

E eu, que tenho a mania das árvores genealógicas por afinidade (considero-me mesmo descendente de Heraclito), sempre senti essa nobre estafeta como um orgulho. Estão sempre a dizer-me, apesar de eu protestar contra isso, que eu sou um rapaz antigo (e dizem-no como elogio, imagine-se). Se isso significa eu valorizar, modernamente, a relação do meu avô com o seu Ford Cortina (os temas clássicos), em detrimento das putativas emoções do ciborg-carro (os temas pós-egípcios), então aceito. De qualquer modo, o meu avô foi uma das seivas que marcaram decisivamente a minha maturação. É claro que (à semelhança do meu professor de português do secundário, fundamental para o meu gosto pela escrita) era um indivíduo terrivelmente conservador, que hoje talvez me fosse difícil suportar. Mas a sua estatura talhada a prumo, a sua afectividade pouco exuberante mas absolutamente segura, a sua precisão ética, constituíram para mim um precioso espaço-pai (que é carne do espírito).

De tal modo era sólido o meu avô, que uma vez a Pide o convidou para ingressar nos seus quadros. Ele rejeitou. Penso que o fez essencialmente para evitar dilacerações na sua vida (aliás, sempre lamentou o vinte e cinco de Abril), mas a verdade é que tomou a atitude certa.

Um dia, estavam as estradas de minha casa ainda alcatroadas com algum desleixo rural (que, como toda a gente sabe, é uma praga camarária), uma chuva diluviana rebentou os muros da rua da garagem e, provocando um Nilo digno do Antigo Testamento, arrastou o Cortina até o danificar severamente. Mais tarde, numa noite estupidamente indiferente, o carro foi roubado sem ruído, e o BuQuim nunca mais foi indemnizado pelo seu paradeiro.

Há um momento na vida em que começamos a morrer. A agressividade do dilúvio e do roubo traçou essa fronteira para o meu avô. Não por causa do automóvel propriamente dito, mas porque a violência do tempo em revolução dilacerou por fim o homem de certezas lentas.

Hoje, não encontro motivos suficientemente fortes para desprezar um bom sono. E mesmo detestando automóveis, acredito, sinceramente, que aqueles sinistros que a felicidade zumbidora sofreu foram ordenados por uma infernal Pide divina.

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