domingo, agosto 24, 2008

Chatice

Devo ser das poucas pessoas do planeta que não apreciam Cerimónias de Abertura de Jogos Olímpicos. Assim seja.

A meu ver, esse tipo de espectáculo orienta-se em torno de três vectores estéticos essenciais: o louvor abstracto da multidão em detrimento da dignidade infinita do indivíduo (não diria que se trata de estética totalitária, mas a verdade é que há quem defenda que uma das razões que tornou o nazismo possível foi a faculdade inédita do cinema mostrar reais e imensas multidões sem rosto), a coreografia do rigor da simultaneidade (ou seja, todos os indivíduos a virarem a cara para o mesmo lado e ao mesmo tempo, aqui sim, evidente metáfora da carneirada) e a exibição da superioridade financeira e tecnológica (o novo-riquismo, portanto).

Os chineses, nação ambiciosa e de ética duvidosa, cumpriram todos esses requisitos na perfeição (há quem qualifique a sua Abertura como a melhor de sempre). Não me impressionaram. Zhang Yimou (que poderia ter-se tornado o melhor realizador contemporâneo - meço bem as minhas palavras) é nada mais que um encenador pimba.

2 comentários:

Miguel Drummond de Castro disse...

Também não gostei da cerimónia de abertura dos JOs, pelas razões aqui muito bem apontadas.
Os actos colectivos encenados ao milímetro reproduzem movimentos maquinais. A multidão como máquina é uma visão deprimente, monótona, esmagadora.

Um abraço,

Miguel

pedroludgero disse...

Já não me sinto tão "raro"...

Mas a verdade é que me esqueci de dizer que, do ponto de vista do conteúdo, o espectáculo não teve mais a dar do que demagogia. Porra: gente inteligente que não admite a menor "candura" num discurso político, num filme ou numa canção, fica extasiada com meia dúzia de baboseiras sobre ecologia, paz e amor e etc.

Abraço também para si.