sexta-feira, agosto 08, 2008

Apressada recensão

Recentemente, li quatro livros sobre Anton Tchékhov. Apresentá-los-ei pela ordem cronológica dessa leitura.

"Performing Chekhov" de David Allen faz uma análise dos principais momentos da História da encenação do teatro do autor de "Três irmãs", incidindo apenas sobre três países: a Rússia (como não podia deixar de ser, desde o trabalho inaugural de Stanislavski até às suas subversões recentes), os Estados Unidos (onde o teatro de Tchékhov acabou por ser essencial na criação do Método de Lee Strasberg) e a Inglaterra. Gostei particularmente das ideias dos encenadores britânicos Jonathan Miller e Mike Alfreds. O único problema do livro é que o seu autor considera que, no final de contas, Tchékhov nunca foi bem encenado. Compreendo que se queira fazer justiça às possibilidades inesgotáveis do texto do russo, mas desconfio que o seu teatro já terá sido várias vezes contemplado com a justeza e a justiça devidas. No fundo, é como se David Allen, que nos conta o Teatro através de uma história de falhanços parciais, não quisesse elogiar nem censurar ninguém.

"Chekhov, Scenes from a life" de Rosamund Bartlett é uma bem documentada biografia do autor (suficientemente equilibrada para evitar mitificações ou delírios). Apenas me pergunto se é assim tão necessário arrancar à força um ponto de vista novo sobre um assunto eleito. Que Tchékhov gostava de viajar, isso parece evidente, mas daí a construir uma biografia a partir do pressuposto unificador da viagem, isso já soa a algo forçado. O Tchékhov de Bartlett pareceu-me ser um homem, principalmente, impaciente.

"Tchékhov em cena", uma edição organizada por Luís Varela (Casa do Sul), reúne um conjunto de textos, conferências e mesas-redondas organizadas pelo Centro de História da Arte e a Secção de Teatro do Departamento de Artes da Universidade de Évora, em torno do centenário da primeira encenação de "O cerejal". As contribuições são, claro, desiguais. Lamento que os encenadores portugueses convidados não tenham sido mais eloquentes na partilha das suas experiências com os textos tchekhovianos. Só João Lourenço foi abrangente e específico nas suas comunicações. Do global, eu destacaria o texto do estudioso Georges Banu sobre a peça atrás mencionada, uma daquelas análises que iluminam um assunto ao mesmo tempo com rigor e com audácia. É um autor cuja obra irei certamente investigar.

Por fim, "Reading Chekhov - a critical journey" é uma deriva crítica em torno da obra e vida do escritor, feita por Janet Malcolm a partir de uma peregrinação literária (devidamente ironizada pela autora) aos locais onde Tchékhov viveu. Tirando a previsibilidade repetitiva da estratégia (cada capítulo começa sempre com uma observação prosaica colhida na viagem que dirige sempre a autora para a obra do autor abordado), a crítica é sempre equilibrada, inteligente e sintética. Digamos que é um livro que não traz nada de novo, mas que também não nos induz em erro sobre o assunto que versa.

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