sábado, agosto 30, 2008

Acaso

A poesia e a generosidade constituem dois mistérios: nenhuma poética e nenhuma ética podem garantir a eclosão de uma e de outra, respectivamente.

E esses dois mistérios são os objectos do meu trabalho intelectual: por isso, não preciso de religião nem de policiais.

Perante o corpo físico (do indivíduo ou da comunidade), a poesia é inútil: não alimenta, não cura, não defende, não resolve. Mas perante aquilo que poderíamos nomear como corpo psíquico, a questão não se coloca da mesma maneira.

Cada inteligência tem a liberdade radical de decidir acerca da utilidade da poesia para si mesma. A ineficácia política deste tipo de criação resulta, aliás, da liberdade: a maioria dos homens não lhe reconhece (nem alguma vez reconhecerá) nenhum tipo de utilidade. No entanto, é esse falhanço que confirma a nobreza especificamente política da poesia: a sua perene hipótese de dádiva que só o indivíduo que conquistou a liberdade interior plena sabe acolher ou recusar.

1 comentário:

paysanxxi disse...

bonito e certo, mas nem sequer precisamos de deixar o corpo fora disto. a margem, são os outros...