sábado, agosto 30, 2008

Acaso

A poesia e a generosidade constituem dois mistérios: nenhuma poética e nenhuma ética podem garantir a eclosão de uma e de outra, respectivamente.

E esses dois mistérios são os objectos do meu trabalho intelectual: por isso, não preciso de religião nem de policiais.

Perante o corpo físico (do indivíduo ou da comunidade), a poesia é inútil: não alimenta, não cura, não defende, não resolve. Mas perante aquilo que poderíamos nomear como corpo psíquico, a questão não se coloca da mesma maneira.

Cada inteligência tem a liberdade radical de decidir acerca da utilidade da poesia para si mesma. A ineficácia política deste tipo de criação resulta, aliás, da liberdade: a maioria dos homens não lhe reconhece (nem alguma vez reconhecerá) nenhum tipo de utilidade. No entanto, é esse falhanço que confirma a nobreza especificamente política da poesia: a sua perene hipótese de dádiva que só o indivíduo que conquistou a liberdade interior plena sabe acolher ou recusar.

O caso

O caso Maddie acabou por se tornar uma espécie de affaire Dreyfus anglo-lusitano para o século XXI.

A desmesura mediática que estes dois eventos irracionalmente atingiram, o absurdo da sua intromissão na vida pública, fizeram com que eles se tivessem tornado aparelhos de medição da ética individual e colectiva.

No entanto, se no paradigma francês o valor moral dependeu da tomada de posição de cada cidadão (pró ou contra o preconceito anti-semita), no caso Maddie a distinção faz-se entre aqueles que levianamente arriscam uma tomada de posição (acusadora ou defensora) e aqueles outros que aceitam o silêncio distanciado que a ignorância factual lhes impõe.

quarta-feira, agosto 27, 2008

923º post




O cabodaboatormenta faz hoje dois anos (ao contrário de um certo Cabo africano cujo nome é vagamente semelhante ao deste blogue).

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Crónica do Avô Materno

Quando eu era miúdo, não gostava de dormir: especialmente durante a noite... Por isso, sempre que, estando já deitado na cama a horas decentes para qualquer infância, eu ouvia o carro dos meus avós maternos a chegar a minha casa, isso constituía um momento de imaculada felicidade. Por vezes, a visita dava mesmo direito a curtir a insónia longe dos lençóis (apesar dos protestos da minha mãe); outras vezes, era só a minha avó que me visitava com o seu carinho excessivo (os avós maternos sempre foram mais importantes para mim do que os paternos, pois estes tinham os meus primos para se ocuparem). Seja como for, aquele zumbir carnal do automóvel era inconfundível para mim, e para sempre me marcou como uma delícia pueril (e pavloviana, diga-se).

O carro era um prolongamento do BuQuim. O senhor conservava-o como se fosse um objecto precioso, destinado a um convívio com o tamanho da vida inteira. Era um Ford Cortina XL (parecido com o da imagem), espaçoso, elegante, absolutamente fiável, capaz de vexar qualquer algodão inquisidor de limpeza. Era um carro antigo, e a relação do meu avô com o carro era uma relação antiga. Aliás, todas as relações que o meu avô constituiu funcionaram segundo o mesmo modo recto e ancestral.

O meu estranho nome Ludgero (que, ao contrário do que é costume em empresários, fotógrafos ou médicos, não é um apelido) foi herança sua. Só que o meu avô não era meu avô real: a minha mãe não foi criada com os seus verdadeiros progenitores, mas com uma tia e o marido desta (o tal Ludgero). Ora, não só a minha mãe sempre assumiu a verdadeira filiação perante os seus pais de afecto (que nunca chegaram a legalmente adoptá-la), como nem eu nem o meu irmão alguma vez conhecemos outros avós maternos que não fossem esses (a avó verdadeira morrera antes de nós nascermos, e o avô não era bem vindo). Ou seja, o meu avô materno não me deu o seu sangue, mas o seu nome.

E eu, que tenho a mania das árvores genealógicas por afinidade (considero-me mesmo descendente de Heraclito), sempre senti essa nobre estafeta como um orgulho. Estão sempre a dizer-me, apesar de eu protestar contra isso, que eu sou um rapaz antigo (e dizem-no como elogio, imagine-se). Se isso significa eu valorizar, modernamente, a relação do meu avô com o seu Ford Cortina (os temas clássicos), em detrimento das putativas emoções do ciborg-carro (os temas pós-egípcios), então aceito. De qualquer modo, o meu avô foi uma das seivas que marcaram decisivamente a minha maturação. É claro que (à semelhança do meu professor de português do secundário, fundamental para o meu gosto pela escrita) era um indivíduo terrivelmente conservador, que hoje talvez me fosse difícil suportar. Mas a sua estatura talhada a prumo, a sua afectividade pouco exuberante mas absolutamente segura, a sua precisão ética, constituíram para mim um precioso espaço-pai (que é carne do espírito).

De tal modo era sólido o meu avô, que uma vez a Pide o convidou para ingressar nos seus quadros. Ele rejeitou. Penso que o fez essencialmente para evitar dilacerações na sua vida (aliás, sempre lamentou o vinte e cinco de Abril), mas a verdade é que tomou a atitude certa.

Um dia, estavam as estradas de minha casa ainda alcatroadas com algum desleixo rural (que, como toda a gente sabe, é uma praga camarária), uma chuva diluviana rebentou os muros da rua da garagem e, provocando um Nilo digno do Antigo Testamento, arrastou o Cortina até o danificar severamente. Mais tarde, numa noite estupidamente indiferente, o carro foi roubado sem ruído, e o BuQuim nunca mais foi indemnizado pelo seu paradeiro.

Há um momento na vida em que começamos a morrer. A agressividade do dilúvio e do roubo traçou essa fronteira para o meu avô. Não por causa do automóvel propriamente dito, mas porque a violência do tempo em revolução dilacerou por fim o homem de certezas lentas.

Hoje, não encontro motivos suficientemente fortes para desprezar um bom sono. E mesmo detestando automóveis, acredito, sinceramente, que aqueles sinistros que a felicidade zumbidora sofreu foram ordenados por uma infernal Pide divina.

"Aquele querido mês de Agosto" - imagem

O ACTUAL 20

"Aquele querido mês de Agosto" - Miguel Gomes


Ainda bem que Miguel Gomes não conseguiu fazer o filme que pretendia fazer. Parece-me que, por si só, o melodrama projectado não teria força suficiente. Assim sendo, este é provavelmente o melhor objecto de cinema que o realizador já cumpriu.

Da mesma forma que o livro "Lisboaleipzig", de Maria Gabriela Llansol, se articulava como a passagem de um diário a um romance, "Aquele querido mês de Agosto" dá corpo à hipótese teórica da metamorfose de um filme documental em plena ficção. Ora, o que Miguel Gomes consegue é, pela forma como concretiza o documentário, gerar no seu espectador a urgência da ficção.

Toda a primeira parte da obra padece de violência latente. Os dois planos que a esse respeito mais me tocaram (dada a sua subtileza) foram: o caçador que aponta a sua espingarda na direcção dos moinhos eólicos na paisagem, e a canção de Toni Carreira acerca dos sonhos infantis utilizada como banda sonora de um plano que segue o percurso de um carro dos bombeiros. Mas todo o documentário acusa essa violência (a sobrevivência perigosa do Moleiro, o javali ensanguentado, as histórias de crime que fazem a mitologia rural, etc.) que, por si só, é o que gera o mencionado desejo de ficção.

Assim como as canções (pimba) são fantasmas que assombram a paisagem, a ficção (o mundo dos desejos eróticos e suas flutuações sentimentais) apõe-se ao documentário como se fosse um espectro. A própria ficção é uma matrioska de outras ficções, cada vez mais profundas e irreais (como a história do rapto da figura materna por extraterrestres, utilizada para o pai se enganar a si mesmo quanto ao facto de ser um marido traído e abandonado). O problema narrativo (a tensão incestuosa entre pai e filha) só se resolve com o regresso a uma violência decisiva (a possibilidade de morte pelo fogo). Quando o malogrado namorado (e primo) da protagonista aquiesce que salvou a vida do tio, quer-me parecer que ele está a dizer que aquilo que fundamentalmente salvou foi a relação pai-filha da sua deriva patológica.

A passagem de documentário a ficção significa, neste filme, a passagem da latência à exposição. É curioso, aliás, que todo o segmento documental funcione com uma estética rádio: locutores em off cujo rosto quase nunca vemos, efeitos de mistura sonora a imitarem as técnicas radiofónicas, a proliferação de canções. A imagem funciona apenas como comentário ora descritivo ora irónico da dimensão auditiva. Quando surge a segunda parte (o cinema), a imagem passa a assumir o impacto decisivo, e a violência exibe-se na sua plenitude ao mesmo tempo perturbadora e redentora.

Um filme com menos Verão do que seria suposto, este, onde um grupo de tolos se lança ao cinema com a distância imperturbável de uma comédia perigosa.

Regra e confirmação

O caminho para a generosidade é um labirinto.

domingo, agosto 24, 2008

Chatice

Devo ser das poucas pessoas do planeta que não apreciam Cerimónias de Abertura de Jogos Olímpicos. Assim seja.

A meu ver, esse tipo de espectáculo orienta-se em torno de três vectores estéticos essenciais: o louvor abstracto da multidão em detrimento da dignidade infinita do indivíduo (não diria que se trata de estética totalitária, mas a verdade é que há quem defenda que uma das razões que tornou o nazismo possível foi a faculdade inédita do cinema mostrar reais e imensas multidões sem rosto), a coreografia do rigor da simultaneidade (ou seja, todos os indivíduos a virarem a cara para o mesmo lado e ao mesmo tempo, aqui sim, evidente metáfora da carneirada) e a exibição da superioridade financeira e tecnológica (o novo-riquismo, portanto).

Os chineses, nação ambiciosa e de ética duvidosa, cumpriram todos esses requisitos na perfeição (há quem qualifique a sua Abertura como a melhor de sempre). Não me impressionaram. Zhang Yimou (que poderia ter-se tornado o melhor realizador contemporâneo - meço bem as minhas palavras) é nada mais que um encenador pimba.

Michael Phelps

Para não ser pindérico, o poeta tem de estar dopado com as derrotas do mundo.

quinta-feira, agosto 21, 2008

Golddigger of 2008



Nelson Évora

A room with a view



































Houve um tempo em que uma das principais preocupações de um turista quando chegava a um hotel era a solicitação de um quarto com vista sobre. Claro que então os turistas eram em menor número e as vistas sofriam de pouco ruído...

Fui ao País de Gales para poder compreender a vista que o escritor Dylan Thomas (cuja poesia pretendo começar a traduzir) tinha da casa onde morou os últimos quatro anos da sua vida (um período de grande fecundidade onde ele escreveu os seus últimos e magistrais poemas e a obra dramática "Under Milk Wood"). Presumo que um homem (e muito especificamente um poeta) se pode também definir pela riqueza que ofereceu aos seus sentidos.

A casa, conhecida como The Boathouse, foi-lhe cedida por uma ricaça qualquer (Thomas nunca foi seu proprietário), e fica situada em Laugharne (pronuncia-se Laárne), no sul da região, de frente para o estuário do rio Tâf.

Dizem os Baedekers do presente que Laugharne se mantém quase idêntica ao período em que foi habitada por Thomas e sua família (na verdade, o poeta viveu vários períodos curtos no local, mas só se fixou definitivamente lá em 1949). Eu diria que é uma vila com todos os benefícios da província e quase nenhuns dos seus defeitos.

Laugharne é pequena mas não claustrofóbica. Tem todas as condições de um lugar civilizado. A intimidade entre as pessoas cria-se de imediato. Mesmo um tímido inveterado como eu, ao segundo dia, já conhecia várias pessoas. Mais, quando eu me preparava para me vir embora, o carteiro perguntou-me, preocupado, se eu tinha apanhado um autocarro no dia anterior... Já sabia coisas da minha vida. Tem poucos restaurantes, mas todos distintos uns dos outros, cumprindo funções diferentes: há o pub rasca, o restaurante onde se comem pêssegos recheados e se ouve bossa nova, a loja onde se pode comer marisco, e a casinha que, lado a lado com venda de compotas regionais, serve deliciosos bolos. O ar é puro. Tem um castelo em ruínas (como sempre acontece nas Ilhas Britânicas), suficientemente dramático para não ser apenas mais um. E toda a linha costeira, quando não se sabe bem se a água que se nos oferece ainda pertence ao rio, ou já ao mar (ou aos outros dois rios que também desaguam no mesmo sítio...), é de uma beleza assombrosa.

Thomas gostava do local, mas por vezes sentia necessidade da grande cidade, e ia a Nova Iorque. De qualquer modo, em todos os lados onde esteve, dedicou-se com afinco à sua grande actividade existencial: beber. "Under Milk Wood" terá sido baseada na vida dos populares de Laugharne (ver este post).

A casa, agora um museu (mau como todos os museus do género), não tem nada de particularmente relevante. E a minha peregrinação literária (como todas as peregrinações do género) é ridícula (aliás eu também fui a Swansea e a Cardiff). Mas a verdade é que, quando deixei uma mensagem no livro a isso destinado em The Boathouse, só me lembrei de escrever: "Mr. Thomas deserved this view".

Não vou, claro, fundamentar a importância de uma vista. Seria tão tolo como se quisesse fundamentar o sexo.


(Imagens minhas)

Descobrimentos

Encontrei, no Centro de Arte Contemporânea da Gulbenkian, a obra do brasileiro Waltércio Caldas. E devo dizer que foi uma revelação. Aliás, tenho sido mais surpreendido pela escultura recente (Tony Cragg, Gego, Rui Chafes, Ângelo de Sousa) do que pela pintura ou todo o séquito de contemporaneidades.

Pareceu-me uma obra determinada pelo sono. Não pelo sonho (o autor, aliás, manifestou numa entrevista algum desagrado face aos surrealismos superficiais), mas pelo sono. No espaço chamado Quarto Azul, posso confessar que senti mesmo a embriaguez de uma libertadora modorra.

domingo, agosto 10, 2008

Paragem



Durante cerca de quinze dias, este blogue ficará parado. Estarei no País de Gales.

(Imagem retirada daqui)

sexta-feira, agosto 08, 2008

Nota "Alexandra"

Este filme de A. Sokurov fez-me lembrar um daqueles quadros antigos em que uma figura mitológica (um deus, um anjo...) passeava alegoricamente no meio dos Homens reais.

Nesta obra de narrativa rarefeita, é realmente o Afecto que se passeia no acampamento militar, onde os homens estão carentes, porcos e embrutecidos.

O interesse do filme reside no facto de que Sokurov, em vez de dar ao Afecto o aspecto de uma criança ou de uma mulher (como seria expectável), representou-o através da imagem de uma velha no fim da vida.

É, de facto, um Afecto cansado, moribundo (e de que outro modo poderia ser?), aquele que se passeia no contexto de guerra. Em tudo se nota esse cansaço: nas dificuldades físicas de locomoção por entre as arquitecturas bélicas, no espanto perante a grosseria na flor da idade, na teimosia, etc.

Poderíamos pensar que uma cineasta como Chantal Ackerman teria talvez tornado este cansaço mais radical, mais pungente. De qualquer modo, o filme de Aleksandr Sokurov (no qual o cineasta conteve a sua propensão para o exibicionismo estetizante) é tocante.

Apressada recensão

Recentemente, li quatro livros sobre Anton Tchékhov. Apresentá-los-ei pela ordem cronológica dessa leitura.

"Performing Chekhov" de David Allen faz uma análise dos principais momentos da História da encenação do teatro do autor de "Três irmãs", incidindo apenas sobre três países: a Rússia (como não podia deixar de ser, desde o trabalho inaugural de Stanislavski até às suas subversões recentes), os Estados Unidos (onde o teatro de Tchékhov acabou por ser essencial na criação do Método de Lee Strasberg) e a Inglaterra. Gostei particularmente das ideias dos encenadores britânicos Jonathan Miller e Mike Alfreds. O único problema do livro é que o seu autor considera que, no final de contas, Tchékhov nunca foi bem encenado. Compreendo que se queira fazer justiça às possibilidades inesgotáveis do texto do russo, mas desconfio que o seu teatro já terá sido várias vezes contemplado com a justeza e a justiça devidas. No fundo, é como se David Allen, que nos conta o Teatro através de uma história de falhanços parciais, não quisesse elogiar nem censurar ninguém.

"Chekhov, Scenes from a life" de Rosamund Bartlett é uma bem documentada biografia do autor (suficientemente equilibrada para evitar mitificações ou delírios). Apenas me pergunto se é assim tão necessário arrancar à força um ponto de vista novo sobre um assunto eleito. Que Tchékhov gostava de viajar, isso parece evidente, mas daí a construir uma biografia a partir do pressuposto unificador da viagem, isso já soa a algo forçado. O Tchékhov de Bartlett pareceu-me ser um homem, principalmente, impaciente.

"Tchékhov em cena", uma edição organizada por Luís Varela (Casa do Sul), reúne um conjunto de textos, conferências e mesas-redondas organizadas pelo Centro de História da Arte e a Secção de Teatro do Departamento de Artes da Universidade de Évora, em torno do centenário da primeira encenação de "O cerejal". As contribuições são, claro, desiguais. Lamento que os encenadores portugueses convidados não tenham sido mais eloquentes na partilha das suas experiências com os textos tchekhovianos. Só João Lourenço foi abrangente e específico nas suas comunicações. Do global, eu destacaria o texto do estudioso Georges Banu sobre a peça atrás mencionada, uma daquelas análises que iluminam um assunto ao mesmo tempo com rigor e com audácia. É um autor cuja obra irei certamente investigar.

Por fim, "Reading Chekhov - a critical journey" é uma deriva crítica em torno da obra e vida do escritor, feita por Janet Malcolm a partir de uma peregrinação literária (devidamente ironizada pela autora) aos locais onde Tchékhov viveu. Tirando a previsibilidade repetitiva da estratégia (cada capítulo começa sempre com uma observação prosaica colhida na viagem que dirige sempre a autora para a obra do autor abordado), a crítica é sempre equilibrada, inteligente e sintética. Digamos que é um livro que não traz nada de novo, mas que também não nos induz em erro sobre o assunto que versa.

Proposta de concurso

Como os programas televisivos portugueses são sempre imitações de originais importados (como se vivêssemos num país onde a gente do "entretenimento" não fosse capaz de ter uma ideia... ou será que vivemos mesmo nesse país?), vou lançar aqui uma proposta de concurso. É o seguinte:

Os concorrentes terão de ser crianças de dez anos de idade. Nem mais, nem menos. Uma turma de adultos, alguns casados, outros com filhos, sexualmente bem rodados, a maioria com pós-doc (não me lembro de graduação mais alta), viajados, com a sua quota de sofrimentos e livros lidos, e com as costas vergadas por muitos anos de trabalho estúpido, dizia eu, portanto, que essa turma de adultos terá a função de tentar ajudar as crianças a responderem às perguntas feitas por um entrevistador muito encantado com esse belo conceito que é a cultura geral (cada criança concorrente terá direito a espreitar uma sugestão de resposta do adulto, a copiá-lo, ou a ser salva por ele - só podendo usar cada ajuda uma vez).

As perguntas versarão sobre os mais variados assuntos: física quântica, astrofísica, fenomenologia, teoria literária, estudos queer, polémica em torno do aborto, sociologia das relações afectivas, tabus de Cavaco Silva, etc.

Quando uma criança for eliminada por falhar uma resposta (o que será pouco provável), essa criança terá de se virar para a câmara de televisão e, com um profundo sentido de humilhação, dizer: "Eu não sei mais que um adulto com experiência de vida".

Caravana

"Quer dizer, a sociedade gostava de sopa de favas, mas as pessoas, essas, preferiam sopa de couve-flor."

Rui Manuel Amaral

quinta-feira, agosto 07, 2008

quarta-feira, agosto 06, 2008

What is the question?

O Mundo é um lugar sem perfeição.

Algumas das pessoas que acreditaram em fins da História (quando essa fé ainda era possível) não foram ingénuas, mas verdadeiramente generosas (ao contrário do que dizem os muitos bem-instalados-no-mundo-pós-moderno-que-já-sabe-da-poda). Claro que houve teimosias absurdas, crueldades intoleráveis, e por fim todos os gulags do mundo. Mas algumas dessas personagens sopradas pela utopia terão sido, assim creio, sinceras.

No entanto, o Mundo é um lugar sem perfeição. Cada problema que resolvemos engendra outro que nunca poderíamos ter previsto. Por exemplo, o mundo ocidental conseguiu resolver a dependência do Homem face aos caprichos da agricultura. Fantástico (hoje, a fome no mundo ocidental é um escândalo de difícil explicação). No entanto, não só não resolvemos o problema da alimentação no resto do mundo, como criamos um problema ainda mais estúpido, que é a obesidade que epidemicamente assola esta parte do planeta. É praticamente impossível viver na Europa ou nos Estados Unidos sem ver a sua saúde comprometida pelo excesso e pela mediocridade da alimentação com que nos quisemos proteger.

Aquilo que eu considero um verdadeiro esforço de cidadania é a vontade de parar e pensar qual a motivação inicial que levou a determinado estado das coisas. Por que razão construímos este mundo ocidental desta forma? E será que essa razão se mantém, ou foi completamente pervertida (provavelmente por culpa de ninguém)? É bom que o Homem tenha sempre que comer, independentemente de meteorologias ou pragas. Mas o que aconteceu depois?

É esta a minha desconfiança no capitalismo: a vontade de deixar tudo em liberdade por razões de eficácia económica acaba por também provocar os seus inefáveis Monstros. Claro que, depois, quando percebemos que a real acção do mundo é levada a cabo por G3s e G8s, podemos entrar em desespero. No entanto, se não queremos desistir por completo (e eu, francamente, gosto tanto de viver), temos de continuar a lutar, quanto mais não seja pela possibilidade de o mundo se aproximar um pouco do ponto G.

Duas sugestões desbragadas

Há determinados assuntos sobre os quais não tenho uma opinião definitiva. Por exemplo, não sei se justiça e prisão se articulam em sinonímia tantas vezes quantas os códigos nos querem fazer crer (às vezes preferia que me dissessem que uma pena de prisão pode ser necessária por meras razões de segurança). No entanto, a partir do momento em que alguém decide "Vamos seguir este rumo", então eu sinto legitimidade para exigir que esse rumo seja o efectivamente seguido, e não uma palhaçada montada em seu nome.

Democracia: sobre isto tenho opinião definitiva, claro. Só gostava de levantar uma questãozinha absolutamente idiota. Os eleitores escolhem os seus líderes políticos por um período de tempo razoavelmente extenso (aqui em Portugal, quatro anos). Esse tempo é necessário para que se crie alguma estabilidade governativa, isso é lógico. No entanto, a partir do momento em que a sociedade começa a rejeitar profundamente o trabalho de um executivo, não haverá maneira dessa rejeição poder ter um efeito democrático que não esteja dependente do humor de um Presidente da República? Vejamos: se mais do que cinquenta por cento dos eleitores de uma comunidade (nunca um número inferior a este) ao fim de um ano (suponha-se) se sentirem traídos pelos líderes que elegeram e estejam a assistir impotentes à perversão do rumo que sonharam para o seu país, não haveria maneira desse contra-voto latente ter um efeito de destituição do governo (não vou discutir aqui a forma que isso poderia tomar: assunto delicado, de resto)? Aqui em Portugal, por exemplo, neste momento não haveria lugar para isso (as sondagens assim o demonstram). Mas, talvez o segundo mandato de George W. Bush pudesse ter sido beneficamente interrompido a meio. E podemos até especular se esta não seria uma forma hipotética dos cidadãos desmontarem um regime eleito que se está a metamorfosear em ditadura, antes que essa metamorfose adquira plena força e legitimidade. Presumo que esta ideia já tenha sido debatida no passado, e agradeço desde já qualquer argumentação dissuasora. No entanto, a minha sugestão é baseada na vontade genuína de tornar a democracia mais democrática.

Mas tenho uma ideia ainda mais desbragada... Aldeia global: nem vale a pena ter grande opinião, já chegou e veio para ficar. Ora, mais do que nunca, hoje é patente o domínio de alguns países sobre outros (estou a falar de poderio económico e militar). Toda a gente sabe que Portugal está dependente dos grandes países europeus ou, sejamos mais honestos, dos Estados Unidos da América. Ora se vivemos um fundo de Aldeia Global, deveríamos também ter direito à sua forma. Sob pena de tudo isto se tornar uma hipocrisia de surrealpolitik, talvez devêssemos começar a interrogarmos-nos se, por exemplo, os portugueses não deveriam ter alguma forma atenuada de contribuição para as escolhas governativas dos Estados Unidos. Não vale a pena ficarmos chocados: se a ingerência de uns países noutros é certíssima (ainda que ninguém o assuma), então mais vale pormos tudo em pratos limpos e pensarmos num Direito Internacional mais abrangente (e que ecoe a realidade - não é isso que os juristas defendem?). Eu até coloco um exemplo muito concreto. Há um conjunto de potências que têm direito de veto no Conselho de Segurança da O.N.U. Muito bem. Mas se assim é (e neste caso, a possibilidade de ingerência não é ocultável), então os restantes países deveriam ter alguma chance de intervenção democrática no rumo desses países. Claro que não seria uma intervenção semelhante àquela que liga cada cidadão ao seu estado (nem era preciso dizer isso). Mas talvez os senhores juristas devessem começar a pôr a imaginação em funcionamento e estudar as diversas possibilidades de ajustamento do Direito Internacional à realidade (não propriamente nova, mas nunca como agora tão intensa) da Aldeia Global.

Só não me vendam palhaçadas.

Liridiversidade.

Como até a Amazónia está a ser devastada, tem de ser o poeta a inventar a nova selva inexpugnável.

segunda-feira, agosto 04, 2008

O meu quintal 1





Tangerineira em Julho
(imagem minha)


(Com o descaramento de estar a tornar este blogue cada vez mais esquizofrénico e de assim afugentar qualquer leitor que se ponha a jeito de público-alvo, começarei a publicar, esporadicamente, as deficientes imagens que eu for conseguindo captar do meu quintal. For sensuality's sake.)

sábado, agosto 02, 2008

"Blade Runner" - imagem

O INACTUAL 26

"Blade Runner" - Ridley Scott (1982)



A alegoria latente neste famoso filme de ficção científica está suficientemente esvaziada e monumentalizada para não poder ser reduzida a um sentido único. A narrativa da revolta dos replicants (robôs perfeitos mas condenados a um tempo de vida demasiado exíguo) pode ser lida de diversas maneiras:

1. Enquanto denúncia da irresponsabilidade generalizada da acção humana.

2. Enquanto denúncia da desconfiança política que o Outro sempre gera; ou, ainda mais justamente, enquanto exorcismo daquela dificuldade que todos sentimos quando temos de distinguir quais os seres que, apesar de terem aspecto humanóide, são de facto humanos.

3. Como uma advertência contra a ilusão de triunfo sobre a efemeridade (a tentativa de adiar a morte, por parte dos replicants, só os leva a apressar essa mesma morte).

4. Ou então (e esta parece-me ser a leitura mais profunda de todas), como descrição de uma Humanidade que banalizou o sofrimento moral da sua mortalidade (o polícia sofre fisicamente, mas os replicants sofrem tragicamente). Daí a descrição da Terra como um planeta em decadência.

No entanto, o filme vale sobretudo pela consistente, imaginativa, ampla e deveras pungente reinvenção do que pode ser um espaço urbano (a referência parece-me ser "Metropolis" de Fritz Lang). Seja de quem for a responsabilidade (do production designer, do director de fotografia, do realizador que nunca mais fez nada de relevante posteriormente?), o facto é que o filme consegue inventar uma nova imagem da Cidade. E fá-lo através de uma estética barroca (não o considero um objecto look...), o que é pouco valorizado pela crítica actual (até porque o barroco muitas vezes arrasta consigo o mau gosto, como acontece em Fellini ou Greenaway).

É pena que Hollywood tenha transformado toda esta imaginação visual num academismo sufocante. Mas o momento inaugural não pode ser negligenciado.

Bugs Bunny presents

Há quem se oponha à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo com o argumento de que o objectivo do casamento é a procriação. É o caso de Manuela Ferreira Leite.

O argumento é, em si mesmo, forte. Convence. De facto, a relação sexual entre dois homens ou entre duas mulheres nunca dará origem a um feto humano. No entanto, eu definiria esta atitude como a utilização demagógica de um argumento-tipo-Lili-Caneças numa discussão séria. Ou seja, se eu disser "eu não me posso casar no ano 2100", isso é uma verdade absoluta (na altura não estarei vivo). Como diria a nossa socialite: estar vivo é o contrário de estar morto. Argumento, em si mesmo, forte. Fortíssimo.

Mas os argumentos só são, de facto, fortes, na relação que esses argumentos estabelecem com a discussão em que são utilizados. Dito de outro modo, podemos reduzir o conceito de casamento à questão da procriação? Eu penso que não (ou haveria muito criador de coelhos com brevet de casamenteiro).

Mas se for esse o argumento utilizado, se for essa a razão que empurra as pessoas para o matrimónio, então eu não tenho mais nada a fazer senão lamentá-las e desprezar tão veneranda instituição.