terça-feira, julho 22, 2008

Uma perspectiva

A preocupação mais urgente do ser humano é o triunfo contínuo ao nível da sobrevivência. E, na minha opinião, se é a preocupação mais urgente, é também a preocupação principal (só se formos demasiado idealistas é que secundarizamos as imposições da realidade). Mesmo o indivíduo que tenha a sobrevivência financeira assegurada sem precisar de trabalhar (se é que isso é possível, pois há que contar com a violência dos movimentos sociais, por exemplo), tem de diariamente combater a infelicidade psíquica, a doença, o acidente, etc.

Ora, em torno da sobrevivência, há dois espectros existenciais que conseguem abolir momentaneamente o seu sentido (nenhum sendo positivo nem negativo). Por um lado, temos o ócio, que equivale aos momentos que libertam a sobrevivência de modo a que ela se possa tornar fruição da vivência e que, de certa maneira, se confunde com o Além paradisíaco e com a experiência de felicidade associada ao conceito de Deus. Durante o ócio (de que, na chamada vida real, só conhecemos fragmentos), a sobrevivência deixa de fazer sentido (um exemplo prático: no fim das férias, a maior parte dos indivíduos nem sequer consegue conceber o regresso ao trabalho, quando esse trabalho não lhe traz realização pessoal, mas é apenas necessário por razões utilitárias).

Mas do outro lado da sobrevivência, temos o sublime. O sublime é o momento (apenas um momento) em que o contacto com uma realidade extrema que dificilmente conseguimos abordar com respostas seguras ou com atitudes equilibradas, retira sentido à sobrevivência. Um exemplo prático: o facto de por vezes nos darmos conta da inefável imensidão do universo, da sua variedade infinita, e de suspeitarmos de que nele não desempenhamos nenhum papel significante (como julgávamos antes da revolução coperniciana), faz com que nos interroguemos sobre a validade do nosso esforço quotidiano de triunfo na selva existencial (outros exemplos possíveis: a desmesura da fome em África, o Holocausto, um mergulho submarino, um parto, a beleza de uma japoneira, etc.). Exactamente como no caso do ócio, do sublime só conhecemos fragmentos. Instantes que nos obrigam a parar (e a perspectivar a possibilidade do radical). Só que, ao contrário do ócio, o sublime não leva a uma paragem análoga à morte, mas a uma paragem análoga ao amor. Não é, de facto, amor, mas funciona de modo análogo a este (e por isso alguém como Lacan se ocupou da sua definição). Dito de outro modo, e ao contrário do que pensava Edmund Burke, o sublime provoca uma momentânea suspensão do egoísmo, da conservação de si mesmo.

O que me parece essencial é que não se confunda o conceito de sublime com a sensibilidade de cada época para o exprimir. Por exemplo, aqueles que historicamente confundiram o sublime com o grandioso, estavam apenas a subjugar aquele conceito a um determinado gosto, ou tom. Porque, se há de facto coincidências de sensibilidade transversais a toda uma sociedade (quase todos nós pasmamos com a desmesura inexplicável do universo, se bem que não todos!), isso terá mais a ver com a conjuntura histórica que conforma essa sociedade do que com a essência conceptual do sublime. Um exemplo prático: quando, daqui a milénios, as travessias inter-galácticas forem rápidas, cómodas e banais, e quando soubermos um pouco mais sobre a nossa relação com o universo, este deixará certamente de ser uma fonte tão intensa de sublime.

A atribuição de um fenómeno histórico de gosto à essência do sublime serve apenas para açaimar os criadores artísticos com a ortodoxia que os senhores da cultura dessa época querem impor. E, claro, a criação artística nem sequer precisa de estar aprisionada no conceito de sublime.


(Nota: estas notas serão desenvolvidas num ensaio que pretendo escrever sobre o livro "Je sublime" do poeta surrealista Benjamin Péret).

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