segunda-feira, julho 07, 2008

Recordações da casa amarela

No meio do caos existencial e conceptual que nos torna vulneráveis, por vezes vale a pena pararmos e tentarmos explicar (a nós mesmos, sobretudo) a razão deste ou daquele comportamento, daquela ou desta opção.

Aproveito, então, para tentar fundamentar (por tópicos simples) a minha adesão àquilo a que se convencionou chamar o espectro esquerdo da ideologia política (presumo que o facto de eu achar que as pessoas canhotas são sexy não conte para o exercício).

Afinal, por que razões me digo eu um moço de esquerda, especialmente quando nenhum partido dito de esquerda me satisfaz e acabo por quase sempre cumprir o meu direito-e-dever-cívico com um voto branco mais branco não há?

1. Em primeiro lugar, defendo que a classe social na qual um indivíduo nasceu e foi educado (ou melhor dizendo, culturalizado), tem um peso decisivo (ainda que não fatal) no desenrolar da sua vida posterior. Sempre pensei que isto era evidente, mas já ouvi muito comentário militando na direcção diversa. Nem sequer preciso de estudos de sociologia que me confirmem aquela intuição. Não nasci ontem, ainda por cima tenho a infelicidade de ser professor, tenho a minha porção de mundo. Acredito que haja maneiras diferentes de tentar contornar o problema, é certo, mas sejam elas quais forem, têm sempre de partir daquele postulado materialista.

2. Defendo também um critério absoluto de aferição da pobreza. Ou seja, não aceito que me digam que não podemos tentar explicar as convulsões vindas do mundo árabe recorrendo ao argumento da pobreza (entre muitos outros e nada edificantes argumentos), porque nesses países o conceito de pobreza é diferente (um critério relativo, portanto). Acaso devemos aceitar a discriminação da mulher que existe no contexto islâmico porque aí o conceito de feminilidade é diferente? Não, a pobreza é algo de concreto, quase mensurável, igualmente trágica na Etiópia ou nos Estados Unidos da América.

3. Assim sendo, não aceito que se esteja constantemente a denegrir (com má fé demagógica) o conceito de igualdade, para o opor à liberdade. Claro que ninguém quer um mundo de contas bancárias que sejam todas as caras chapadas umas das outras. Como poetinha, reclamo mesmo a plena diversidade e variedade do Mundo. Mas, e digo-o com a melhor fé que ainda possuo, também não caio nessa exaltação de uma liberdade mercantil capaz (sabemos isso pela História) de esmagar o indivíduo nas suas expectativas mais básicas. Se a liberdade é uma tendência, a igualdade também o é. São ambas instrumentos de trabalho político, não são cartoons infantis.

4. Por outro lado, na medida em que o capitalismo é o fim (transitório) da história que nos querem contar (e até aceito que seja melhor assim...), prefiro colocar-me na posição daqueles que o criticam, daqueles que diariamente o impedem de evoluir em direcção à monstruosidade, dos que fazem barulho no outro prato da balança. Numa palavra, prefiro ser um chato. Há já muito tempo que me deixei de acreditar piamente seja no que for.

5. Além disso, não sou minimamente seduzido pelo conceito de mercado. Sou, ah!, uma delicada alma das Humanidades... E prefiro saber que, quando o mercado fica de pernas para o ar (ou pelo menos quando ameaça uns bons tremores de sobrevivência), há a possibilidade da Comunidade como um todo (enfim, também não sou propriamente seduzido pelo conceito de Estado...) poder controlar a sua própria exequibilidade, o seu equilíbrio. Dito de outro modo, defendo que a Comunidade tem que existir tanto enquanto organismo livre e dinâmico, como enquanto consciência de si mesma (da sua coesão). E não me venham com terceiras vias, que eu respondoa com quintas dimensões.

6. Sou, aliás, bem mais pessimista que os ortodoxos de direita e os ortodoxos de esquerda. Não tenho suficiente fé no Homem para lhe entregar a minha sobrevivência seja em rédea solta, seja em planos quinquenais. Como era aquela coisa da liberdade com responsabilidade?

7. Ao nível dos costumes, acredito (furiosamente) que a legitimidade de um valor é aquela que resulta da reflexão filosófica que sobre ele se estabeleça, e não a que resulta de uma tradição. É claro que as pessoas de direita que são minimamente inteligentes têm a cabeça completamente desempoeirada a este respeito. No entanto, por muito que eu não queira acreditar em caricaturas, a verdade é que as Manuelas Ferreiras Leite acabam sempre por aparecer.

8. E, por fim, tenho a Utopia em bastante boa conta. Não a utopia dos sistemas de pensamento ou das suas execuções siberianas. Falo da possibilidade aberta pela palavra, do seu contágio (sempre menor, imperfeito, doloroso, ridículo, inútil), da inspiração que faz a excepção, da brisa. Afinal, hoje até já sabemos que, por sermos humanos, temos alguns Direitos.

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