domingo, julho 13, 2008

Post chão

A arte é uma manifestação sensorial e formalista do pensamento.

Escolhi a palavra sensorial, pois o adjectivo sensual traria uma conotação erótica que poderia delimitar em demasia a definição. Até porque há obras frias que continuam a ter um impacto sensorial sobre o espectador: o frio, precisamente.

A filosofia também consiste numa manifestação do pensamento. É, no entanto, uma manifestação discursiva: não há necessariamente um trabalho sensorial sobre a forma que esse discurso toma. Claramente, há filósofos (como Nietzsche) que também podem ser considerados criadores artísticos.

Aquela definição permite integrar todo o espectro da arte dentro de si: desde as pinturas rupestres até ao indivíduo que corre pela Tate Britain. Por exemplo, o ready made de Duchamp é claramente a manifestação de um pensamento (deveras sofisticado, diga-se) por meio de um trabalho (a escolha) sensorial sobre a forma.

Não me parece, portanto, que o problema da arte contemporânea seja a sua definição (tanto papelzinho gasto...). Mais preocupante é o trabalho da crítica, que está muito mais atenta à novidade do pensamento por trás de uma obra do que à justeza desse pensamento e do trabalho sensorial-formal que o exprime. Eu continuo a não sentir interesse absolutamente nenhum pelo artista que regista em vídeo a sua auto-mutilação, para provar isto e mais aquilo. Nem interesse estético, nem ético.

E por outro lado, a ideia de vanguarda acabou por funcionar como uma sucessão edipiana de tomadas de poder trans-geracionais. Ora, parece-me a mim que o benefício de uma vanguarda seria o de provocar uma abertura nas expectativas sobre a arte. Visivelmente, não é isso que acontece: cada nova vanguarda acaba por funcionar como uma ortodoxia castradora do pensamento divergente. Hoje, dizem-nos que um pintor é alguém que ainda recorre aos velhos métodos. Será que um dia, para poder continuar a ser poeta, vou ter de deixar de escrever?

De facto, Arte é aquilo que nós dizemos que é Arte. O problema é a avaliação da sua relevância.

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