terça-feira, julho 15, 2008

Partilha 35

(Continua a publicação de alguns textos do meu projecto abortado "Cadernos de Xochimilco". O seguinte excerto é um apontamento de ensaio.)


Segundo Espinosa, a passagem do medo ao desespero dá-se quando a dúvida (perante um prejuízo iminente) se torna certeza. No entanto, o próprio filósofo assume que não podemos ter certeza de nada que não seja presente, actual. Deste modo, enquanto uma ameaça se encontra em estado de mera iminência, o antídoto para qualquer desespero tem de ser brechtiano – o reconhecimento de que aquela certeza não passa de ilusão.

Quando, porém, a certeza se torna tão pesada que extravasa qualquer distância racional, ou melhor, quando a certeza adquire uma tal gravidade que o sentimento doloroso pode mesmo prescindir da realidade do facto ao qual se refere, entramos no domínio específico das peças de Tchékhov.

De facto, Sónia e o tio Vânia podem vir a mudar de vida – no entanto, o desespero torna-os de tal modo sábios que eles perdem rebeldia emocional. Sabem, com um saber que se basta a si mesmo. Todas as personagens de Tchékhov amam o mundo. Mas talvez por causa disso o mundo os invada com tanta intensidade (negativa), que a infelicidade se torna a única evidência possível. Para o dramaturgo, parece que nenhuma perda de fé pode ser estritamente racional.

Diz a poesia recente que a morte não é cardíaca mas cerebral. Assim sendo, a esperança não é a última coisa a morrer.

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