sexta-feira, julho 18, 2008

Os críticos

No tempo em que Ingmar Bergman e Federico Fellini eram celebridades vivas do cinema moderno, um dos ataques aos dois autores mais repetidos pelos críticos da época era a falta de consciência político-social que ambos pareciam demonstrar (curiosamente, Tchékhov também era criticado por não tomar posições óbvias na guerrilha ideológica do seu tempo, ele que escreveu sobre a miséria do mundo camponês e sobre o horror da siberiana colónia penal de Sakhalin...).

Como as coisas mudam: imaginaríamos hoje algum crítico contemporâneo a confrontar os irmãos Warchowski e seus milhões de prejuízo com a recente crise alimentar mundial?

A cada época as suas taras.

Devo dizer que me parece que os referidos ataques a Bergman e Fellini padeciam, para além de demagogia, de um entendimento absolutista da filosofia marxista (que é, aliás, parte da triste história do século passado). Ou seja, quando um determinado sistema de pensamento não consente nenhum outro sistema de pensamento, um outro ponto de vista sobre o mundo (se um tipo pensa x, argumenta y, propõe z, isso é porque pertence a um contexto económico-social, e não há outra maneira de fundamentar essas atitudes), então esse sistema só se legitima através do totalitarismo da sua própria perfeição.

Bergman e Fellini não estavam apaixonados pela política (em sentido estrito), mas quando se compara a sua obra com a de Costa-Gravas ou a de Vittorio de Sica, não se pode ter dúvidas da sua muito maior contundência interventiva.

Já quando os marxistas dizem que tudo é político, independentemente da verbalização de um programa ideológico, então já podemos começar a conversar. E Fellini e Bergman até podem andar nas T-shirts dos jovens do Bloco de Esquerda.

Todo o sistema de pensamento tem de ser constantemente repensado para se manter dinâmico e libertador.

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