domingo, julho 20, 2008

O INACTUAL 25

"Morangos silvestres" - Ingmar Bergman (1957)


Este filme que Bergman realizou no seu período mais clássico é, a meu ver, um filme musical (o autor afirmava que gostaria mais de ter sido um maestro do que um escritor ou um artista plástico). Não porque a música, em sentido literal, tenha grande importância no seu enredo, mas porque toda a obra funciona como uma partitura de variações puramente emocionais (desde a nostalgia da infância até à aterrorizadora frieza do casal desavindo, passando pela boa disposição convivial, pela solenidade, pelo medo, etc.) que, na sua constante mutabilidade de tom e modo, equilibram a homogeneização proposta pela narrativa (onde sonhos, conversas, visitas, recordações ou encontros fortuitos, todos se igualizam como um discurso semi-consciente no espírito do protagonista).

Isto acontece porque o problema proposto pelo filme é o da escolha: na medida em que, na existência (na narrativa), todos temos de fazer escolhas que abolem o infinito das possibilidades prévias (o drama do protagonista deriva do facto da sua paixão da adolescência ter decidido casar com o seu irmão, em vez de com ele; mas outras escolhas são debatidas no filme, como a atitude perante a fé ou perante a misantropia), como pode a nossa psicologia emocional (a musicalidade) lidar com essa condição castradora?

Apesar do seu aspecto clássico (da perfeição do argumento), a verdade é que a narrativa de "Morangos Silvestres", que basicamente se resume à exposição da backstory do velho médico, é transmitida de forma fragmentariamente experimental. E isso é porque o cinema funciona como uma medicina da alma.

Isaak Borg pensa que conseguiu separar a sua vida pessoal (falhada) da vida profissional (um enorme sucesso). No entanto, no pesadelo em que tem de sofrer um exame de medicina, o castigo da reprovação é nada mais que a solidão e o visionamento do momento em que a mulher lhe foi infiel no passado. A própria Sara, a adolescente que o acompanha ao longo da viagem que o levará à universidade onde será jubilado, toma em conta a profissão dos seus dois pretendentes quando se questiona sobre qual dos dois incidirá a sua escolha sentimental.

O cinema, para quem o merece, é uma profissão onde toda, toda a vida está implicada. Daí que Bergman lance mão de todos os recursos que este lhe oferece: personagens diferentes representadas pela mesma actriz; personagens que estão mortas e voltam à vida; utilização artificiosa da luz; saltos de tempo; campo-contracampo entre a mesma personagem, etc.

O cinema permite aquilo que as outras profissões não permitem: inverter os pressupostos da velocidade (note-se que, no início do filme, Isaak decide viajar de automóvel em vez de avião). Pois, se a sabedoria profissional do médico foi lentamente construída ao longo de cinquenta anos de actividade, a sua sabedoria emocional foi conquistada num único dia (que lhe deu a compreensão global desse meio século).

Bergman não nos traz júbilo. Mas coloca-nos num lugar-paz onde os dilemas existenciais se diluíram na distância. A última cena mostra os pais do velho, ao longe, num plano de conjunto, onde a harmonia não é certa, mas a grandeza do espírito é possível.

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